Um livro que nunca vi indicação e nunca o teria procurado. Ele encontrou-me num saldo de sebo e ainda bem que o trouxe comigo.
Desconheço esse escritor português, mas consta que ele nasceu em Águas Santas, nos arredores do Porto, em 1924. Estudou em Coimbra, licenciou-se em Filologia Clássica, foi professor no liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Produziu monografias de investigação etimológica e literária. Sua obra consagrada é "A casa do pó". Em 1956, escreveu, então "o homem da máquina de escrever".
Uma narrativa bem incomum dividida em três partes: o homem contente por ter comprado uma máquina, seu trabalho como jornalista ao desvendar um caso nonsense de um beijo roubado e a última parte é a fábula geométrica sobre três arestas de uma pirâmide.
Esta última parte é a mais fascinante. As três arestas conversam e cada uma demonstra sua superioridade em relação a outra, desprezando as demais. Eis que um leitor atento invade a fábula e questiona: "mas e a quarta aresta, não têm as pirâmides de Gizeh quatro?". E então, o homem da máquina de escrever responde: "a quarta aresta não perdeu, como o senhor, a oportunidade de ficar calada". A sabedoria da quarta aresta fez com que permanecesse calada diante de uma situação fútil e desnecessária. O homem encerrou assim seus relatos, fechou a máquina à chave, guardou-a no bolso e também calou-se, depois de um livro cheio de metáforas que fazem o leitor refletir sobre elas pelo resto da existência.
Uma fábula e tanto num livro envolvente, curioso e bem diferente em vários aspectos narrativos.