Nada de carros voadores ou raios verdes que desintegram pessoas e coisas. Em Oryx e Crake, novo livro de Margaret Atwood, a escritora canadense cria uma ficção científica absolutamente original, mostrando mais uma vez suas credenciais como uma das primeiras-damas da literatura mundial, vencedora do Booker Prize 2000 com O assassino cego, também lançado pela Editora Rocco. Em Oryx e Crake, a prosa sofisticada de Atwood viaja até um futuro próximo, ainda bastante familiar, mas ao mesmo tempo estranho e bizarro para o leitor. O mundo é apresentado como um lugar pós-apocalíptico e melancólico, habitado por criaturas biologicamente modificadas e tomadas pelo vício. O narrador do romance é o Homem das Neves, um sobrevivente do antigo planeta, que um dia chamou-se Jimmy. No início da trama, ele está em cima de uma árvore, vestindo um velho lençol, lamentando a perda de sua amada Oryx e de seu amigo Crake. Os flashbacks de Jimmy acabam revelando ao leitor que ele testemunhou as experiências genéticas que ajudaram a transformar o planeta num território devastado. Quando garoto, Jimmy vivia com os pais nos Complexos, o lugar onde moravam os endinheirados e os considerados extraordinários intelectualmente. Agora, precisa encontrar comida em um deserto infestado de insetos e assiste à destruição da Terra dos Plebeus — onde viviam aqueles que eram considerados apenas normais — por porcões e lobocães, animais criados nas experiências transgênicas do passado. Como tudo decaiu tão depressa? O Homem das Neves tenta entender junto com o leitor, enquanto a narrativa retrocede algumas décadas, até sua infância ao lado de Crake. Descobre-se que o grande amigo de Jimmy tornou-se um gênio de caráter duvidoso, cuja personalidade enigmática e ambígua é uma chave para a trama. Foi na bolha hightech de Crake que o Projeto Paradiso, responsável pela modificação da Terra, se desenvolveu. Ele e Jimmy vão formar um tumultuado triângulo amoroso com a bela Oryx, uma ex-criança prostituta que não está muito acostumada a dar ou receber afeto. A delicada relação entre os três gera um ciclo de desamor e desencontro e é um pano de fundo dramático e extremamente simbólico para a derrocada do planeta e da espécie humana. Único ser humano a sobreviver, o Homem das Neves tem apenas a companhia dos Filhos de Crake, crianças de laboratório criadas pelo amigo. Elas o tratam como um ídolo, já que ele é o único capaz de decifrar a utilidade e o nome de objetos simples como canetas e bonés, vestígios arqueológicos do mundo "de antigamente" e que elas encontram pelo caminho. Não é por acaso que as epígrafes escolhidas por Atwood para este livro citam Jonathan Swift, autor de As viagens de Gulliver, e Virginia Woolf, de Orlando e Rumo ao farol. Com a maestria de sempre, a autora consegue conjugar uma fábula fantástica, mórbida e cheia de ação, com personagens cujo mundo interior é misterioso e uma constante descoberta.
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