No universo historiográfico atual, saturado por apologias e modismo oriundos de vertentes da Nova História e uma compreensão parcial do grupo do Annales, este livro representa um poderoso marco. Sem negar o núcleo racional dos Annales (onde ele existe), François Dosse demonstra como o ecumenismo epistemológico adotado por esta escola funcionou como eficaz estratégia para incluir e superar projetos de seus contendores.
A História em Migalhas - Dos Annales à Nova História
François Dosse
Edições (1)
Ver maisUma perspectiva rica, mas exigente.
Nesta obra do excelentíssimo historiador François Dosse, ele traça a emergência e o auge da chamada "Escola dos Annales", fundada por Lucien Febvre e Marc Bloch, analisando como essa escola revolucionou profundamente a forma de pensar a história. Ao romper com uma história centrada em grandes eventos e política, os Annales introduziram perspectivas econômicas, sociais e culturais, abrindo assim um diálogo frutífero com outras disciplinas como a sociologia, a antropologia e a geografia. Dosse também explora as contribuições de historiadores de grande relevância, como Fernand Braudel, cuja abordagem da “longa duração” marcou uma virada decisiva. Ainda, o autor não se limita a esse período "dourado" e examina a progressiva fragmentação da disciplina, que dá nome ao livro, A História em Migalhas. Com o advento da “Nova História”, impulsionada por figuras como Jacques Le Goff e Pierre Nora, a história se torna ainda mais diversificada, integrando temas até então considerados marginais, como mentalidades e memória coletiva. Estes temas são abordados na primeira e segunda onda dos Annales, mas é na terceira onda que o papel das mentalidades de longa duração e tecelagem mental coletiva são deslocados para o centro do debate. Essa diversificação temática, embora estimulante, não deixa de provocar discussões sobre a unidade e a cientificidade da disciplina. Em uma crítica à "fragmentação" da história, Dosse aponta os limites dessa evolução. Se a abertura da história para outros campos renovou os métodos, ela também teria levado, segundo ele, a uma diluição da disciplina. A história, ao fragmentar-se, perderia sua capacidade de oferecer sínteses universalizantes e correria o risco de ceder a abordagens excessivamente subjetivas ou anedóticas. Nesse sentido, a obra também é uma reflexão sobre as tensões entre interdisciplinaridade e especificidade disciplinar, entre micro-história e macro-história. Concluindo, é uma obra engajada, mas às vezes controversa. Um dos méritos do livro é situar os debates historiográficos em seu contexto intelectual e ideológico. Dosse mostra como essas transformações refletem os abalos da sociedade contemporânea, marcada pelo pluralismo, pelo mal chamado "relativismo" e por uma crescente desconfiança em relação às grandes narrativas totalizantes. Contudo, é possível que alguns leitores notem em Dosse uma nostalgia por uma visão mais estruturada e abrangente da história, além de uma crítica por vezes severa às abordagens mais recentes. Entendo que a fragmentação não é necessariamente uma fraqueza, mas uma resposta pertinente à crescente complexidade das ciências humanas e paradigmas epistemológicos contemporâneos.
Estatísticas
Avaliações
4.1 / 45- 5 estrelas38%
- 4 estrelas31%
- 3 estrelas27%
- 2 estrelas2%
- 1 estrelas2%

