O livro de Fritz Müller (1864, Für Darwin) foi traduzido para o português e publicado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). A obra atual inclui a tradução do livro original, com os aditamentos e correções do autor apresentados à 2a edição (1869, Facts and arguments for Darwin), 6 resenhas bibliográficas da época e 4 necrológios. Trata-se da obra decisiva na consolidação do evolucionismo darwinista. Foi pioneira na apresentação e discussão minuciosa de provas factuais, obtidas do estudo de crustáceos em Desterro (atual Florianópolis), SC, pelo eminente naturalista Fritz Müller, de origem alemã e naturalizado brasileiro, que aqui chegou em 1852 aos 30 anos de idade, vivendo em nosso país durante 45 anos, até o seu falecimento em 1897, aos 75 anos de idade. O livro se integra no conjunto de homenagens prestadas ao naturalista pela Universidade Federal de Santa Catarina, vindo a público no mesmo dia (22/10/2009) em que a Universidade lhe concedeu o título de "Doutor Honoris Causa" In Memorian.
Für Darwin - Fatos e Argumentos a Favor de Darwin
Fritz Müller
Você pode até nunca ter ouvido falar de Fritz Müller, mas certamente já ouviu falar em "mimetismo mülleriano". Ou deve ter visto aqui e ali, no "Origem das Espécies", uma citação aparentemente perdida à Müller. Fritz Müller foi um dos muitos naturalistas viajantes que coletaram na América do Sul, no século XIX. Porém, Müller distingue-se dos demais por ter sido o único a fixar residência permanente no Brasil, vivendo em Santa Catarina, cidade de Blumenau. Foi um dos primeiros a acatar a teoria da evolução por seleção natural de Charles Darwin, e talvez o primeiro a por a teoria em teste. Müller estudou os crustáceos, especialmente sua embriologia e desenvolvimento, contribuindo de forma enorme para a Carcinologia. Também deve ter sido o primeiro a propor uma narrativa evolutiva para a origem dos Rhizocefala, um peculiar grupo de Crustáceos endoparasitas, tendo origem nos Cirripedia (curiosamente, o grupo-alvo da monografia de Darwin). Então, por que mesmo com essas valiosas contribuições, com gratidão sonoramente reconhecida por um dos pais da teoria da Evolução, o nome e obra de Müller é tão pouco conhecido? Sabemos os grandes nomes estrangeiros, como T.H. Huxley, Dobzhansky, Stebbins, Richard Owen, O.C. Marsh, Darwin e Wallace, mas grandes naturalistas (ao menos em parte) brasileiros, nos são desconhecidos. Nisso, Müller padece do mesmo mal que Goeldi e von Ihering. Mas, ao menos Goeldi é homenageado com um importante museu no Pará; e von Ihering batiza o nome de um grande periódico nacional. Felizmente, esse cenário vem mudando de alguns anos pra cá, com os esforços de Blumenau em tornar conhecido o nome de seu grande naturalista. Com justiça. Ah, o livro é, não surpreendente, muito bom. Possui desenhos claros, descrições precisas e uma narrativa que, apesar de bem técnica, é bem envolvente. Aqui e ali há alguns sinais do tempo, como menções a "Hereditariedade Fraca" (vulgo "transmissão de caracteres adquiridos") e uma taxonomia bem antiga dos Hexapoda, numa época em que Orthoptera englobava basicamente todos os insetos não-Holometabola, não-Hemiptera. No final, há um teste da Teoria da Evolução similar ao "Coelhos no Cambriano" de J.B.S. Haldane, mas evocando a presença de estágios larvais específicos nos Amphipoda e Isopoda. Leitura recomendada.
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