Causos do Coração de Minha Terra - E... Dicas da Nova Ortografia

    Lucy Bortolini Nazaro

    Clube de Autores
    2009
    100 páginas
    3h 20m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Fazer falar os silêncios da memória é alguma coisa de encantador e mágico. Você conversa com o outro ao mesmo tempo em que conversa consigo mesmo e vai desencantando seus esquecimentos, conforme Thompson (p.197) , vai cavando fundo em suas sombras na expectativa de atingir a verdade oculta. Minha verdade nasceu enquanto criança, ouvinte de histórias contadas pelos heróis não oficiais da terra que me acolheu. Duas a três vezes por semana, na década de 60-70, uma meia dúzia de homens reunia-se no antigo “armazém” de meu pai, ao final da tarde, abaixavam as enormes portas de ferro e, tomando uma “pinga” no inverno, ou cerveja no verão, os discursos fluíam, arrisco a dizer, com a eloqüência do nosso Condor. Ali eram debatidos os temas do momento, a política, principalmente, lembro bem quando o Seu Plácido dizia “Agora vocês vão ver, o “modeba ” vai acertar este país!” E lembraram saudosamente de suas histórias de vida plenas de trabalho e luta pela sobrevivência. Lembro do Seu Everaldino, filho de pai argentino e mãe brasileira, contando as agruras de sua família na época da disputa entre os dois países, pelo pedaço de chão, que agora era também a minha terra. Contava que eram expulsos da região de Palmas-PR. porque eram considerados estrangeiros, lá se ia a família para a Argentina, mal chegados lá, tinham que retornar, pois eram expulsos também como estrangeiros, eram brasileiros, afinal. Seu Everaldino era um homem de estatura baixa, subia em uma cadeira para fazer seus pronunciamentos. Eram verdadeiros poetas no seu falar. Havia também o Seu Rodolfo, que morava lá no interior e vinha a cavalo para fazer o “rancho” e participar das conversas, na volta meu pai o acompanhava, com a rural carregada, quando chovia até o cachorro ia de carona. Tinha, também, o “Veio” Finkler, coveiro e maestro de uma banda de música da cidade, era um alemão que idealisticamente fundou um clube “Caça e Pesca” onde se reuniam os “gringos” para jogar bocha, bolão e cartas, para dançar e se encontrar com os amigos. Sua história é uma história que merece ser trazida à tona. E tantos outros que se revezavam nestas tardes rememorando o passado e propondo metas para o futuro. Agora entendo que estavam cavando em suas sombras, buscando suas próprias verdades. A força de suas histórias ficou marcada na memória da menina que ouvia tudo sentada sobre o balcão daquele armazém. Mas, foram necessárias décadas para ressuscitar essa ouvinte de histórias, nas tardes de um armazém do interior. Primeiro “campeou” por várias áreas do saber até que se descobriu ouvinte de si mesma e que era preciso também ouvir as vozes da tradição, para se conhecer como agente da própria história, então, buscou refúgio na história oral. Este livro é uma mostra do muito que se pode “tirar” das vivências de nosso povo. Um povo trabalhador, que tem fé e acredita nas promessas do futuro. Verdadeiros exemplos de força e coragem, que vale a pena seguir. Digo uma mostra porque muitos são os causos coletados e muitas são as histórias para contar, histórias que esperam novas páginas que as publiquem e as divulguem. Eu quero dedicar especialmente aos meus pais, Hilário Bortolini e (in memorium) Estella Bortolini, pessoas que alimentaram meu sonho escritor, que me acostumaram a escutar causos e me ensinaram a ouvir os mais velhos, como sementes de sabedoria e exemplos ao futuro. Oxalá nossas crianças possam ler as histórias de seus pais, de seus avós e aprender com eles a riqueza do coração de nossa terra.

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