Antologia raríssima de contos húngaros editada em Portugal em 1944. Contos de Kálmán Mikszáth, Aurél Kárpáti, Dezső Kosztolányi, Lajos Zilahy, A. Bonyi, Ferenc Molnár, Jószef Nyirö, Lajos Bibó, Kálmán Csathó, Zsolt Harsányi, Sándor Hegedűs, Ferenc Herczeg, Zoltan Szytnyai, C. Koncz e Tibor Zsekely.
Contos húngaros -
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Ver maisQue coisa mais linda e triste e comovente é “Contos húngaros”, uma raríssima edição da Gleba, editora de Portugal, editada em 1944 e que tive a felicidade de pegar emprestado na biblioteca de Curitiba! Um livro maravilhoso. Acho apenas que o primeiro conto, “Koszibrovszky, homem de negócios”, de Kálmán Mikszáth, poderia ser substituído por algum outro menor, pois todos os demais são mais ou menos do mesmo tamanho, ao passo que esse, de tão grande, está muito mais para novela. É uma história sobre um sujeito que tenta passar para frente uma fazenda e para isso monta uma grande farsa para enganar o futuro comprador, mas acaba fisgado pela sobrinha dele. Nos demais contos, o que se sobressaiu para mim foi uma acentuada nota existencialista, seja discutindo abertamente questões como “o direito a se suicidar”, em “A última lição”, de Aurél Kárpáti, ou, mais comumente, através de trajetórias de vidas que evidenciam, se não a falta de sentido, ao menos a quase impossibilidade da felicidade. Em verdade, até há a “felicidade”, pois um dos contos, de Dezső Kosztolányi, se chama “Um homem completamente feliz”, mas essa é uma felicidade que nasce do puro isolamento do mundo cotidiano, que não o valoriza e tampouco o compreende. A incompreensão, aliás, é uma marca comum para esses personagens, como se vê em “Elvira” de Lajos Zilahy, em que a personagem chega ao ponto de criar na imaginação outros pais para si, bem mais amáveis. O comum então é fugir das pessoas, como Elvira foge, ao mesmo tempo em que anseia por alguma forma de afeto. O irônico é que quando lhe aparece uma oportunidade, e ela tem então a chance de ser feliz, já é tarde demais: ela já havia decidido acabar com tudo. O personagem de “Solidão”, de A. Bonyi havia passado por uma experiência traumática e passou a sentir a necessidade de companhia, só que ele conseguiu, teve a sua amada, a sua “enfermeira”, mas também essa não foi uma felicidade que se consolidou, pois, num momento de “fraqueza” dela a solidão voltou e, com ela, a tragédia que ele tanto temia. Há casos em que são os outros que vêm nos procurar e oferecer algo que pode ser visto como a felicidade, mas, se nos tiram do nosso ambiente, é possível que a adaptação não venha e, pior, que sequer consigamos nos encontrar outra vez no momento da volta, como demonstra Ferenc Molnár em “O boneco de neve”. Ah, e aquelas vezes em que o bem-estar não é possível desde cedo, porque as condições financeiras não permitem! O mais comovente conto do livro é “A última vontade”, de Jószef Nyirö, a mostrar o quanto a dor e a tragédia, que por si só já são obstáculos para a felicidade, se tornam ainda maiores se, a elas, se ajunta a falta de dinheiro. Nada mais natural que, em algum momento, se chegue a um desespero como o que é mostrado em “O pão”, de Lajos Bibó. Não que não haja esforço. Há esforço e às vezes o esforço vira sacrifício, sacrifício que, nem por isso, recebe alguma compensação. . “O paraíso das mães”, de Kálmán Csathó”, demonstra vivamente tudo o que uma mãe é capaz de fazer para conseguir a felicidade dos outros. Mas até as mães, quem diria, podem ser um obstáculo à felicidade, como é explorado por Zsolt Harsányi em “Abaixo a tirania!”. Mas não poderia faltar também o problema do coração, que tão bem incorpora o ideal de felicidade, mas que, uma vez frustrado ou mal resolvido, pode afastar uma pessoa dela definitivamente. Há memórias muito duras de se suportar e das quais se quer fugir, como em “O pato bravo” de Sándor Hegedűs. Há aqueles casos em que achamos que temos o amor e a felicidade nas mãos, mas sem saber que o outro lado, a outra metade, está com outros planos, e talvez até se divirta às nossas custas, com uma crueldade que é exposta em “Uma mulher singular”, de Ferenc Herczeg, e “Noite no bar”, de Zoltan Szytnyai, no que se refere às mulheres, e em “A carta que não chegou a ser enviada”, de C. Koncz, em que a maldade é toda masculina. Nem por isso, nem por todo o mal que se pode conseguir, deixa-se de sonhar, deixa-se de admirar “A mulher bela”, como no conto de Tibor Zsekely, mas mesmo isso pode ser um perigo, para nós, para a mulher bela, quem sabe se para a própria humanidade. Ao fim de tudo, fica a impressão de que é, ou de que um dia foi, muito difícil, a despeito de toda a beleza local, ser feliz lá na Hungria.
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