Contos búlgaros -

    não informado

    Gleba
    1945
    205 páginas
    6h 50m
    ISBN-1: 0
    Português

    Edição rara de contistas búlgaros organizada presumivelmente nos anos 40 pela Editora Gleba, de Portugal. Contos de Dimitr Ivanov (Elin Pelin), Theodor G. Vlaikov, Eugenia Ermazov, Nicolas Ras. Rakitine, Emmanuel Pope-Dimitrov, Constantino Constantinov, Pantcho Mihailov, Vladimir Polianov, Fanny Popova-Mutafova, Liubene Karavelov, Constantino Vélitchkov, G. P. Stamatov, Petko Y. Thodorov e Constantino Petkanov.

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    Henrique Luiz Fendrich08/02/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Mais uma literatura ignorada no Brasil é a búlgara. Por sorte, encontrei uma antologia de contos editada em Lisboa nos anos 40 e voltada aos “Contos Búlgaros”. Assim já tenho uma melhor ideia daquilo que se produziu no gênero naquele país. Devo ressaltar, entre os contistas presentes no livro, o nome de Dimitr Ivanov (vulgo Elin Pelin). Ele participa com dois contos que, somados a outro que já havia lido no “Maravilhas do Conto Universal”, me permitem concluir que se trata de um mestre da história curta. E é uma lástima que seja solenemente ignorado por aqui. “O advogado” é um divertido conto, muito incisivo na sua crítica ao sistema judiciário em geral, ao mesmo tempo em que ressalta toda a simplicidade dos campônios búlgaros. “O acusado, levante-se!”, por sua vez, coincidentemente também diz respeito a um caso judiciário. O escritor se mostra atento às mudanças tecnológicas do seu tempo e o impacto que elas podem provocar nas simples vilas búlgaras. No caso, o personagem se revolta contra o que o cinema estava fazendo com a sua família e por isso resolve sair pela cidade queimando quantos visse. Hoje, um conto como esse falaria provavelmente do celular. Outro conto que apreciei bastante foi “Anka, a filha de Dona”, de Theodor G. Vlaikov, texto bastante realista sobre as agruras da doença em meio a uma família pobre, quando a própria morte de uma criança pode ser vista como uma bênção para todos. Mas isso não vale para uma mãe, que apresenta uma moral própria com a qual se fortalece e justifica cada esforço para tentar preservar a vida dos seus pequenos. “A alegria não é só para os que têm vida desafogada. É bela também para aqueles que vivem com privações”, diz ela. Há uma grande capacidade de adaptação ou de conformação com a dura realidade, fortalecida na ideia de que outros vivem em condições piores. São descritos episódios prosaicos domésticos que, por sua “alegria calma e franca”, acabavam por fazer se esquecer das agruras do ambiente em que viviam. Tudo isso acaba levando a um bonito resultado. Um bom momento também é “O sonho dum órfão”, de Eugenia Ermazov, mas, nesse, fica a impressão de que o conto é mais positivo do que seria a realidade. “O dragão”, de Nicolas Ras. Rakitine, apresenta uma história romântica trágica. “Tártaros”, de Emmanuel Pope-Dimitrov, é mais um daqueles contos em que se evidencia a crueldade e o absurdo da guerra, essa contando com um pai que se voluntaria entre os condenados à morte no lugar do filho, que só descobriu o gesto mais tarde. “Terceira classe”, conto de Constantino Constantinov, é outra peça ótima, evidenciando a dura condição social de búlgaros vindos do interior para trabalhar na capital Sofia. “Debaixo das ameixeiras” é outro conto de Constantinov no livro e, como o anterior, também reforça desigualdades sociais, agravadas ainda pela questão da guerra recente. Um grupo de mulheres haviam assaltado algumas fábricas de queijo, aparentemente devido à miséria que grassava pela região. “Bolgara”, de Pantcho Mihailov, trata de uma invasão de circassianos em uma aldeia onde havia uma grande cantora, mantida cativa para que cantasse, mas ela se recusa. Há ainda “O dinheiro”, de Vladimir Polianov”, admirável peça sobre um filho que havia ido para muito longe, a fim de fazer fortuna, e que volta depois de quinze anos, mas decide fazer uma surpresa aos pais e não se revelar a eles ao aparecer na casa deles e pedir hospedagem. Os pais não o reconhecem e todos vão dormir, mas durante essa ausência muita coisa havia se passado na cabeça do pai, bastante endurecido pela dureza da vida, e esse pai decide matar aquele hóspede para roubar o dinheiro, sem saber que era um filho seu. O gesto, no entanto, não se concretiza, pois, bem em tempo, chega a filha do casal, que já sabia da chegada do irmã. Notável a crise que se desenrola na cabeça do velho ao saber da verdade. “Uma confissão”, de Fanny Popova-Mutafova, também é interessante, com uma velha que se culpa pela morte do filho na guerra. Ela havia tido apenas filhas mulheres e era humilhada por isso. Então fez uma promessa a Deus para que mandasse um filho homem, ainda que o tomasse depois, e foi o que ocorreu. Há ainda outros contos de que gostei menos: “Búlgaros doutros tempos”, de Liubene Karavelov, “A alma do outro mundo”, de Constantino Vélitchkov, “Lyda Druganova”, de G. P. Stamatov, “O combate”, de Petko Y. Thodorov e “Nestinari”, de Constantino Petkanov. No geral, foi bom conhecer esses búlgaros.

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