Tendo feito minha incrição no Desafio Literário 2010, tocava escolher os títulos que eu me comprometeria a ler ao longo do ano, começando pelo mês de abril (que já vai pela metade) com o tema "escritor(a) latino-americano(a)".
De imediato vieram à mente Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Marquez. De Borges eu não tinha nenhum livro na estante que eu ainda não tivesse lido e do Marquez, tem Cem anos de Solidão me olhando de cima da Barsa, mas eu não achava que pudesse ler e digerir adequadamente Cem anos de Solidão em menos de quinze dias.
Decidi então duas coisas: precisava procurar um livro que eu pudesse ler de uma única sentada e, se possível, de algum autor do qual eu nunca tivesse ouvido falar. E assim, lá fui eu para a livraria...
Quase escolhi Horacio Quiroga, uma vez que ele cumpria os necessários requisitos... Mas aí decidi pesquisar um pouco mais e dei de cara com Luis Sepúlveda, um chileno que vive perambulando pelo mundo, e aquele título assim, meio poético, que me lembrava Drummond - Mundo do fim do mundo (mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não uma solução...).
Li a contra-capa e folheei as primeiras páginas. Logo ali no começo, o cara me citava Júlio Verne, Jack London e Herman Melville. Não sei o que esperava - acho que, talvez, um romance de aventuras no estilo Moby Dick.
Foi assim que Sepúlveda entrou para minha lista. E eu realmente o li de uma única sentada, quase agarrada na cadeira, alheia ao resto do mundo ao redor.
Devo dizer que, se nada mais, participar do Desafio já me proporcionou a oportunidade de conhecer um escritor de quem nunca tinha ouvido falar e do qual, definitivamente, procurarei mais livros (estou agora à procura de O velho de lia romances de amor. Curioso título, não?).
Vejamos o que posso contar do Mundo do fim do mundo... Não, não é um mundo muito além do nosso, nenhuma dimensão paralela ou alternativa. Este mundo fica, muito literalmente, lá para os lados do fim do mundo, entre a Patagônia e a Antártida, ali junto do Estreito de Magalhães.
Há qualquer coisa de autobiográfica na narrativa, especialmente pelo fato de que o narrador, que nos conta a história como se estivesse conversando conosco, não tem bem um nome certo, é chileno, foi para o exílio na Europa durante os tempos de ditadura e por lá ficou como jornalista - o que basicamente resume a trajetória de vida do autor.
Tudo começa num aeroporto em Hamburgo. O narrador pensa em como aquela é a primeira vez em muito tempo que volta ao Chile, apesar de todas as promessas feitas a irmãos e amigos; e em como verá de novo, os territórios do mundo do fim do mundo que visitou quando garoto.
Seguem-se memórias - e um bom bocado das histórias narradas em Mundo do fim do mundo são memórias de pessoas e de povos.
Temos a princípio a história de nosso narrador que, garoto, encantado com as aventuras do capitão Ahab, do Moby Dick de Melville, convence os pais, com a ajuda do tio Pepe, a passar um verão na Patagônia. Seu trabalho como grumete no navio que o leva Punta Arenas, descascando batatas, sua breve estadia com os Brito até sua viagem no baleeiro 'Evangelista', com o basco e Don Pancho.
Mais tarde, anos depois, ele é um jornalista exilado em Hamburgo, que, com três sócios, "um dia cansaram de escrever para a imprensa séria, apenas interessada nos temas respeitantes ao meio ambiente quando estes adquirem visos de escândalo" e criaram uma agência de notícias alternativas dedicada a assuntos do meio ambiente.
A agência recebeu uma pista do Chile, notícias acerca de navios baleeiros japoneses, notícia essa que acaba confirmada por um contato deles no Greenpeace. Há qualquer coisa de podre na história, incluindo até mesmo navios fantasma.
Fui pesquisar a história do navio Nishin Maru que contam no livro e encontrei inclusive uma notícia referente a essa parte da narrativa no site do Greenpeace.
Então, lá vai nosso narrador voltar ao Chile para encontrar-se com o capitão Jórg Nilssen, que também há de relatar sua vida enquanto navegam pela imensidão de águas geladas e perigosas do mundo do fim do mundo, rumo a um campo de batalha triste e surpreendente.
Um cemitério de baleias. A carcaça de um navio.
Não direi mais que isso ou vou terminar por contar a história toda. Em vez disso, recomendo (e recomendo muitas vezes) a leitura desse livro - especialmente se você tem alguma preocupação ambiental e se importa com onde estamos indo parar.
O único problema na minha leitura foi (e talvez vocês tenham percebido isso nos trechos que citei) que a edição em que consegui deitar as mãos é portuguesa e volta e meia eu me via meio atarantada com faltas de vírgulas e palavras ligeiramente estranhas.
Se alguém achar uma edição dele brasileira, por favor, me avise. Este é um livro que eu gostaria de ter na minha estante para ler ainda muitas vezes e sempre ter uma nova reflexão.