Memórias Willy Hoppe -

    Willy Hoppe

    Tricem
    2019
    191 páginas
    6h 22m
    ISBN-13: 9788593266119
    Português Brasileiro

    Willy Hoppe viveu até 93 anos. Os manuscritos que deixou não se restringem apenas a sua vida. São narrativas que revelam a saga dos imigrantes europeus que se dirigiam ao sul do Brasil. Jovem, foi testemunha ocular de fatos históricos como a tentativa de pacificação dos índios Xokleng; do auge das ferrovias; dos ataques de "fanáticos" na Guerra do Contestado; da formação de vilas, hoje grandes cidades. Aprazivelmente muitas de suas anotações vão se materializando, a medida que pesquisas bibliográficas evidenciam detalhes de suas observações, demonstram a previsão dos locais indicados, confirmam a ocorrência e a veracidade dos episódios relatados.

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    Victor Allenspach18/02/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Dançou enquanto pode

    O primeiro filtro para as lembranças é o próprio cérebro, que perde no limbo das décadas, tudo aquilo que é trivial. Guardadas ficam as lembranças fortes o suficiente para flutuarem na superfície, aquelas que pescamos de tempos em tempos com um suspiro desolado. Se a memória for vaga, que surpresa não é tropeçar em algo que estava perdido. Reencontrar uma foto, um cheiro ou uma pessoa. Emoção maior do que o próprio passado e que vem carregada da nostalgia de tudo o que não é mais. Esquecer é ruim, mas lembrar pela metade pode ser ainda pior. Quem era aquela pessoa? Estivemos juntos? A quem pertence o perfume que surge no cruzamento? Por que aquele nome sem face não sai da cabeça? Livros de memória contam muito, principalmente daquilo que não pretendem. Da mesma forma que a Bíblia incomoda por não descrever a juventude de Jesus, não passa despercebida a ausência de uma faculdade, uma profissão ou um amor. A omissão é uma escolha ou um equívoco? Recentemente chegaram até mim as curiosas memórias de meu bisavô, que foram traduzidas do alemão e resgatadas com muito cuidado de seus manuscritos. Publicadas por sua neta Márcia Klann Milla no livro "Memórias, Willy Hoppe", reúnem os relatos de um personagem e de toda a sua geração. Em um outro Brasil, Willy minerou, derrubou árvores e pescou com dinamite (sim, isso existia), maltratando a brava natureza, muito diferente da realidade domesticada e fragilizada que chegou até nós. Procurou bambúrrios que não vieram, e foi tantas vezes passado para trás, que é difícil não se identificar. Detestamos os seus vigaristas, como se assim perdoássemos a nossa própria ingenuidade. Índios defendiam o território desses invasores de outro planeta. Sequestravam e eram sequestrados, matavam e morriam, resgatavam e afugentavam. O convívio improvável era regra, construindo uma realidade surreal de conflito e altruísmo. Mímica era a comunicação entre povos tão distantes, ainda que os risos fossem fáceis de interpretar (como quando índios se acumularam na margem de um rio para gargalhar de alemães encharcados e uma canoa virada). A morte era frequente e provável. Impressionante para o olhar moderno, incapaz de compreender tanta violência e doença descritas como coisas mundanas e pouco trágicas. Sem hospitais e estrutura, a medicina rudimentar dependia de injeções mágicas, como placebos universais. O bem estar dos operários e ajudantes não era motivo para preocupação e acidentes de trabalho eram frequentes ou um caminho sem volta. Mesmo sem intenção, os relatos de meu bisavô contam sobre o papel da música para uma sociedade que ainda não conhecia televisores. Era essa uma das poucas formas de diversão nas colônias simples e humildes que surgiam no interior do Brasil, entretendo, seduzindo e aproximando. Dançando, Willy se distraiu da dureza da vida, conheceu amores e pertenceu a sua época. Dançou, enquanto pode, para que a vida valesse a pena.

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