Doutor Nogueira aos oitenta anos se poe a analisar sua vida, sua magoas, erros e é claro as suas realizações. Como ser otimista, como encontrar forças? Embarque nesta jornada familiar.
Doutor Nogueira aos oitenta anos se poe a analisar sua vida, sua magoas, erros e é claro as suas realizações. Como ser otimista, como encontrar forças? Embarque nesta jornada familiar.

Levemente avariado Nasci em setenta e oito. Sou Brasileiro,Carioca, Cristão, especialista em manutenção de aeronaves e o pior torcedor que o Fluminense já teve. Sempre fui sonhador e construía ininterruptamente vidas e sonhos, castelos e quimeras. Entregava-me a batalhas e conquistas, experimentava o amor e a rejeição. Conquistei mundos e desbravei mares. Tudo sem sair dos limites da minha imaginação. Vivi a minha infância toda no limiar do delírio. Vez ou outra surgia a interrogação entre meus familiares: será que ele tem problemas de cabeça? Quadrinhos eu devorava, mas lia rápido demais. Não durava nada, em cinco minutos acabava a leitura. Quando descobri os livros a loucura ficou completa. Mergulhava naqueles universos ficcionais com devoção. Não tinha muitos livros em casa, mas devorei avidamente os que me caiam nas mãos. Li enciclopédias inteiras mais de uma vez. “Conhecer”, “Os bichos” e outras, cujo título nem lembro mais, foram devidamente devoradas. Conforme eu crescia, aprendi a pesquisar na gloriosa e nada amigável, enciclopédia Barsa o tema da vez. Numismática? Não só era o único dos meus colegas que conhecia a palavra como tinha uma considerável base sobre o assunto. Ao ver um filme de guerra eu já conhecia cada equipamento, mesmo os medievais, já tinha lido nas enciclopédias. Sabia o que era um bisturi muito antes de criarem séries médicas. Acreditem, eu sei para que serve um samovar e um astrolábio. Solilóquio? Conheço sim, pratiquei a vida toda, o que não me ajudou muito a causar boa impressão. Lembro-me do livro “O pequeno lorde”. Li aquelas páginas dezenas de vezes; a ponto de poder afirmar que lorde Fauntleroy participou mais de minha infância que qualquer primo. Com os primeiros salários aos treze anos pude comprar mais livros, o que definitivamente não me ajudou a encarar a realidade. Conheci Raskolnikov, Bentinho,Carlinhos, Romeu e vários outros personagens ao longo dos anos, o que só agravou o quadro de minhas divagações constantes. Hoje encontrei a paz e não mais sofro com o estranhamento que causo nas pessoas. Se me perguntam se sou louco alegremente eu respondo: louco? Sou mais que louco, sou escritor.