Egzorcyzmy Anneliese Michel

    Felicitas D. Goodman

    Polskie Wydawnictwo Encyklopedyczne
    2005
    320 páginas
    10h 40m
    ISBN-10: 8389862395
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    Orlan L S Trindade09/03/2026Resenhou um livro
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    Perfeito até deixar de ser um estudo antropológico para se tornar um palanque

    Ler Felicitas D. Goodman é mergulhar em uma análise antropológica séria e bem fundamentada sobre possessão, transe religioso e os rituais que cercam esses fenômenos. A autora, com seu olhar treinado, constrói um estudo que não descarta a complexidade do caso Anneliesel Michel: ela entrelaça cultura, psicologia e contexto social para mostrar como a possessão não é simplesmente "doença" ou "demônio", mas sim um idioma cultural que dá forma ao sofrimento. Até aí, o livro é brilhante — e, para quem, como eu, leu em uma tradução improvisada via Calibre, a sensação é de estar desbravando um tesouro acadêmico. Goodman mostra que Anneliese não era apenas uma jovem com transtornos psiquiátricos ignorados, mas alguém que, imersa em um catolicismo rural e radical da Baviera, encontrou na possessão a única linguagem disponível para expressar sua dor. A autora não romantiza nem patologiza: ela contextualiza. E é exatamente essa abordagem que torna os primeiros 70% a 80% do livro tão fascinantes. A possessão é tratada como um fenômeno culturalmente construído, com raízes na tradição, na fé e na dinâmica familiar. É uma leitura que amplia horizontes e nos faz questionar os limites entre crença, psicologia e sofrimento. O problema vem nas últimas cem páginas. De repente, o livro deixa de ser um estudo antropológico e se transforma em palanque. O padre Alt, um dos exorcistas envolvidos no caso, assume a palavra e profere um sermão interminável sobre o fim do mundo, o aborto, o satanismo e a juventude perdida. É um discurso fanático, alarmista e repetitivo — daqueles que fazem qualquer leitor minimamente crítico revirar os olhos de tédio. A sensação é de estar preso em um culto, ouvindo um pastor fundamentalista (quem sabe um Silas Malafaia alemão?) misturar pautas morais com teologia barata para justificar a "perdição dos tempos modernos". A inclusão desse sermão sem qualquer contraponto editorial é, no mínimo, questionável. Se a intenção era mostrar a mentalidade dos agentes envolvidos, faltou um filtro, uma análise crítica que contextualizasse aquele discurso e seu papel no agravamento do caso. Em vez disso, o leitor é abandonado ali, tendo que atravessar páginas e páginas de retórica vazia. Pior: fica evidente o quanto Anneliesel deve ter sido manipulada por aquele ambiente de medo e condenação. Se antes ela era vítima da própria ignorância e superstição, agora vemos que também foi vítima da ignorância e do fanatismo alheios. O contraste é triste: um livro que começou tão lúcido termina dando palco a quem, talvez, tenha contribuído para aprofundar o sofrimento de Anneliese. A pergunta que fica é: por que incluir isso? Por que não encerrar a obra no auge da análise antropológica, mantendo a neutralidade e o rigor? A decisão editorial mancha o conjunto e faz o leitor desconfiar de todo o resto, inclusive do quanto a própria autora, em algum momento, pode ter sido influenciada por essas vozes. Ainda assim, o livro vale pela primeira parte. Goodman oferece uma ferramenta preciosa para pensar a possessão como fenômeno cultural, e sua abordagem ajuda a entender não apenas Anneliese, mas tantos outros casos em que a fé e o sofrimento se embaralham. Para quem se interessa por antropologia da religião, psicologia ou estudos de caso reais, é leitura essencial, com a recomendação de, ao chegar nas últimas páginas, ter paciência (ou pular direto para a conclusão). No fim, fica a reflexão: Anneliese Michel foi, sim, vítima de ignorância e superstição. Mas a dela não era a única. O livro, ao expor sem crítica o discurso do padre Alt, nos lembra que o fanatismo também é uma forma de ignorância, e das mais perigosas.

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