Conjunto de quatro livros do autor romano Pvblivs Vergilivs Maro, trata-se de uma espécie de "manual" agropecuário, em que se conta sobre a vida no campo, e o trabalho em geral, de forma tão detalhada que expõe praticamente toda a vida no campo. O primeiro poema fala sobre o cuidado com a terra, e num breve momento, canta-se a origem do universo e a ruína do homem, que basicamente é a queda do paraíso, que nas mitologias grega e romana é iniciada após a Idade do Ferro. É desenvolvida a ideia do cultivo da terra, e o ato de semear. O autor detalha inúmeras ferramentas de trabalho e suas utilidades de forma quase didática. E finaliza-se o canto com a morte de César, e o choro da cidade; seguido pela disputa política pelo poder. O segundo poema é uma continuação direta, pois trata do plantio das árvores, iniciando o canto de maneira bem detalhada a despeito das várias espécies e da natureza. Descreve-se também, a reprodução natural e artificial das plantas, com um simbolismo que podemos trazer do poema anterior, em que após a queda do homem, ele precisa trabalhar para a sobrevivência e principalmente, se reproduzir. Mas isso tudo com o tema implícito sendo o plantio, e reprodução artificial das espécies, em especial falando da enxertia, técnica de reprodução que é usada até hoje pelos agricultores. As espécies principais citadas pelo autor são as oliveiras e as videiras, e há todo um simbolismo entre deuses e espécies. O terceiro poema é iniciado com uma invocação aos deuses e uma espécie de provocação, ressaltando a superioridade romana perante os gregos. Aqui está registrada uma espécie de competição, ao que tudo indica, em que basicamente chamaríamos de "corrida de cavalos", algo similar aos jogos olímpicos, mas que envolvem animais. O autor mostra o preparo desses animais para tais competições. O motivo principal do terceiro livro é o trabalho dos gados, e os cuidados para com eles; Virgílio expõe a dependência que o homem tem com os animais de tração, como bois e cavalos, pois a maior parte do trabalho agrícola, quando se trata da produção e comércio de mercadorias, é graças à tração animal. Um dos comércios citados, por Virgílio, era o das lãs das ovelhas, em que é explicado o cuidado para com os rebanhos, desde os biomas mais ideais até a prevenção contra predadores, que normalmente eram lobos, cobras e javalis; a higiene e saúde, do rebanho, era algo importante para manter a qualidade das lãs. Dentro desse mesmo tema, o autor apresenta um problema em especial, que era a caça aos animais domesticados, assim como os silvestres. Virgílio cita um povo em especial, que é descrito como bárbaros e que habitam nas regiões ao norte, mais especificamente sob o Setentrião. Esses povos são os Citas, que eram conhecidos por serem nômades caçadores; não existem muitos registros acerca desses povos, e um dos poucos registros está nesse poema de Virgílio. O livro termina com a morte de um boi de carga, com o agricultor tomando seu lugar ao final da tarde, com o questionamento subjetivo de que se somos nós, homens, iguais aos outros animais? Com a exceção de que o homem sempre leva a vantagem no final das contas, pois o boi leva a carroça de vinho e azeite, mas quem consome vinho e azeite são os homens, pois para o ser humano, todas as outras raças são de menor importância, dado que o boi morte é deixado no meio do campo, enquanto a morte de um homem é lamentada, e digna de luto. O quarto poema é uma descrição riquíssima da apicultura, e Virgílio dá início ao texto cantando sobre o mel das abelhas e sua produção de forma natural, e o aborda o comportamento social delas. O autor deixa registrados, muitas crenças populares e costumes para a época, como o ato de adoçar o vinho com mel, dando origem ao "vinho suave"; era vulgar a crença de que as abelhas não se reproduziam por coito, mas que eram geradas em locais ocos, como por exemplo, as carcaças de animais em decomposição, e com isso, narra um sacrifício de um novilho para gerar uma colmeia após alguns meses. A partir deste tema, o autor nos prepara para o mito de Aristeu, o apicultor, que é emendado no mito de Orfeu e Eurídice. Isso não é feito por acaso, após dezenas de versos contando sobre a tragédia de Orfeu e Eurídice, são reveladas as intenções do autor para o tema proposto ao início deste livro, que é tratar das abelhas. Enquanto Virgílio nos afoga no mito do casal que precisa fugir do inferno, se dá conta que se passara tanto tempo, que a noite já está caindo e as abelhas já zumbem em redor do novilho abatido. E ao final do poema, o autor revela-se com seu nome, sua cidade e faz ainda uma referência à Égloga I, nominada de Títiro. Sem dúvidas, as Geórgicas são os textos mais difíceis que li até hoje, não apenas pela tradução de Odorico Mendes, mas pelo simbolismo implícito na obra, que com toda a certeza, não captei tudo o que o autor deixou escondido. A proposta clara do autor é falar dos diversos ofícios voltados para a agricultura, mas, além disso, há um assunto explícito nos quatro livros. Ao primeiro poema, em poucos versos, é descrito a criação do universo e a queda do homem. No segundo, cita-se o início do trabalho, envolvendo cultivo, colheita e comércio. Já no terceiro, estão expostos, o domínio do homem sobre as demais espécies, quase que de maneira tirana, e a dependência do comércio que o homem atingiu com sua soberania. E no quarto livro, é incorporado esse tema da essência do homem com o mito de Orfeu e Eurídice, em que ao final, em sua arrogância, ganância e falta de confiança no Divino, o homem se leva ao próprio sofrimento, simbolizado pelo olhar de Orfeu para Eurídice ao final da fuga do inferno. Isso mostra que todo o esforço e ascensão do homem se tornam em vão mediante a arrogância."