RESENHA DO O LIVRO DE JOSÉ MARIA CASTILLO A ÉTICA DE CRISTO
Por Douglas Colácio É constatável, segundo Castillo, que a cada dia a sociedade se preocupe mais com assuntos ligados à moral e à ética, onde vemos intensificado os debates sobre a condução ética da sociedade em assunto como: à bioética, a caridade midiática, a moralização dos negócios, da política e dos meios de comunicação, debates sobre o aborto e a eutanásia, sobre o assédio sexual, a moral do sexo, da família e o casamento gay, uso de preservativo, códigos de linguagem politicamente correto, cruzadas contra as drogas e a luta antitabagista, a laicidade do Estado, a liberdade religiosa. O fato é que a contemporaneidade está cercada por um debate cada vez maior sobre a moral, e a Igreja tem se defrontado com situações que a colocaram a xeque. Parece que ao mesmo tempo que cresce uma preocupação entorno desse assunto, crescem também os casos ondo esses problemas aparecem. Segundo Castillo é importante que a sociedade esteja interessada na busca de respostas aos problemas éticos, contudo precisamos entender a que tipo de respostas e quais os tipos de problemas que estamos buscando resolver. Inclusive a Igreja busca responder a essas questões. Contudo, as respostas obtidas na maioria das vezes pouco ou nada tem a ver com o agir e o proceder de Jesus, falta discernimento na busca de respostas que procedam dos evangelhos. O fato de que a sociedade está em um contínuo processo de mudança não é novidade. A sociedade mudou e evoluiu. Notamos uma transformação antropológica, pois as pessoas já não são e nem pensam como alguns anos atrás. A era da globalização, dos meios de comunicação rápida modificou a forma de relação entre as pessoas. Também é fato que alguns se sintam deslocados em decorrência dessas mudanças, preocupadas e desejosas de um retorno aos costumes e tradições saldáveis, pois as mudanças introduzem novos valores, logo qualquer mudança deveria ser vista como um sinal de ameaça seja lá ao que for. Por isso Castillo defende que devemos, diante dessas circunstancias, olhar para o evangelho de Jesus e perceber qual era a sua conduta ética diante de tais situações, ou seja, como era ao agir de Jesus em relação às pessoas. Observamos nessa obra de José Castillo, que Jesus nos apresente em seu evangelho uma mudança na forma de compreender a Deus. Se antes de Jesus, Deus era visto como um justiceiro irado, absoluto, supremo, todo-poderoso, de certo modo distante, agora ele nos é apresentando como Pai, ou seja, Jesus modifica a nossa forma de nos relacionarmos com Deus, estabelecendo entre Deus e nós uma relação filial. O que vemos revelado em Jesus é uma verdade desconcertante, essa nova forma de Deus se relacionar com os homens a partir de Jesus modifica totalmente nossa visão de mundo e nossa relação de alteridade com o próximo. Partindo do dito de Jesus no evangelho de João: “A Deus ninguém já mais viu. O Filho único que está no sei do Pai, foi quem o revelou” (1,18), e mais a frente Jesus responde a Filipe: “há tanto tempo estou convosco, e não me conhece? Quem me viu, viu o Pai”. (14,8-9). Jesus nos mostra é que o Pai se revelou a partir do Filho e de modo especial, pela forma como Jesus agia e procedia. Assim, Jesus nos apresentou um Deus diferente daquele que a sociedade da época compreendia, um Deus que faz o sol nascer sobre justo e injustos, que pede amor inclusive os inimigos, que se ore por aqueles que nos odeiam, nos apresenta um Deus encarnado, humanizado e que se fez debilidade. Vemos aqui uma inversão, pois ao passo que o humano possui uma fascinação pelo divino que o desencarna ou o desenraizada da realidade despertando-lhe um desprezo pelas coisas do mundo, a encarnação de Deus mostra o oposto, Deus se humaniza ao extremo de abdicar de sua divindade, feito homem se coloca em situação de vulnerabilidade (Fl 2,6-8), numa família pobre (de Nazaré), em uma região pobre (na Galileia) e reunindo um grupo de seguidores pobres (a seita dos nazarenos). Na ética de Jesus se revela a presença de Deus, quando restaurava a saúde curando os enfermos, aleijados, leprosos, libertava os possessos, defendia as mulheres, falava com samaritanos, tocava os impuros, comia na casa dos pecados e caminhava com pessoas de má fama, se aproximava das crianças. O que de fato Jesus quer nos mostrar é a ação de Deus na História. Deus se encarna na História, assume a história humana. Verificamos é que ao invés de divinizar o homem elevando-o à condição divina, o que verificamos em Jesus é o contrário, isto é, a humanização do divino ao seu extremo mais profundo, e segundo Castillo, é precisamente isso que Jesus fez e que tanto nos desconcerta. Jesus não simplesmente se humanizou encarnando-se, mas fundiu o divino com o humano, fusão tão profunda e radical, que o levou a uma morte violente e cruel. O que vemos nos relatos da paixão, é uma condenação fria, cruel e arbitrária. Jesus foi condenado segundo o livro dos Atos do Apóstolos exatamente porque, por toda a parte “andou fazendo bem, e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo; pois Deus estava com ele”, diz Pedro na casa de Cornélio: “E nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez, na região dos judeus em Jerusalém. Eles o mataram, suspendendo no madeiro” (10,38-39). As ações de Jesus em benefício dos mais pequeninos, dos mais fragilizados, marginalizados e abandonados colocou Jesus em choque com as autoridades da época, em especial com as autoridades religiosas, por exemplo quando descumpria a lei do sábado para libertar os possessos e curar os doentes, ou quando não repreendeu os seus discípulos exatamente por arrancarem espigas em dia de sábado, mas pelo contrário os justifica dizendo: “O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado” (Mc 2,28). Logo as ações de Jesus eram ações que buscavam humanizar as pessoas, isto é, garantir-lhes a plenitude humana da vida, mostrando que os preceitos religiosos devem estar a serviço da vida, da dignidade e dos direitos humanos, isto é, a serviço da humanidade. Desse Modo compreendemos que o Deus Pai que Jesus nos revela está muito mais preocupado com a vida das pessoas, com o bem estar humano e, sobretudo, que as pessoas possam ser felizes, gozar de vida boa e saúde. Nessa lógica a ação cristã deve estar voltada a diaconia, para o serviço à vida e não meramente para uma hipotética vida após a morte, que como destaca Castillo, nem se quer sabemos o que é como se dará, mas devemos estar preocupados já nesta vida, com a vida dos pobres e sofridos. No evangelho de Mateus 25,31-46, Jesus nos apresenta uma visão soteriológica do juízo final, onde o Rei separando as ovelhas dos cabritos, aos primeiros chama-os de benditos de meu Pai, precisamente por darem de comer aos famintos, de beber aos sedentos, acolheram os peregrinos, cuidaram dos doentes e visitaram os encarcerados, ao passo que dirá aos demais “afastai-vos de mim malditos” exatamente por que deixaram de fazer essas ações, mas não simplesmente isso, não a fizeram, pois não reconheceram nos marginalizados a presença de Deus, ao passo que os chamados por primeiro fizeram o que fizeram sem esperar nada em troca: Senhor quando foi que te vimos e te servimos nessas condições? “todas as vezes que fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que o fizestes”. Logo o que está em jogo aqui não é precisamente a busca do bem estar em uma vida depois dessa, mas buscar o bem estar humano e a justiça para os marginalizados já nesta vida. Portanto, a atitude de quem segue a Jesus, de quem assume o discipulado, deve ser uma vida de desapego tanto ao dinheiro, como ao poder. Castillo destaca que Jesus, a muitas coisas ele foi tolerante com os discípulos em relação as suas fraquezas e mazelas, mas foi muito taxativo e duro com a busca por poder e dominação, isso ele não tolerou de seus discípulos, mas pelo contrário, em seus gestos e na sua forma de agir, ensinou que devemos buscar não os primeiros lugares, mas os últimos, que não devemos desejar o poder, pois os poderosos desse mundo e as grandes nações o fazem e entre os discípulos não deveria ser assim, chagando à exaltar diante dos discípulos a simplicidade de uma criança, de quem nada se esperaria, mas justamente quem desejasse ser o primeiro, deveria ser o menor e o que serve a todos.
