O desvio das gentes

    Pádua Fernandes

    Editora Patuá
    2020
    0 páginas
    0m
    ISBN-13: 9788582978436
    Português Brasileiro
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    Alexandre Kovacs15/03/2020Resenhou um livro
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    Pádua Fernandes - O desvio das gentes

    Editora Patuá - 160 Páginas - Projeto Gráfico, Capa e Diagramação: Alessandro Romio - Lançamento: 2019. O título desta coletânea de poemas de Pádua Fernandes, O desvio das gentes, é uma leitura irônica da expressão direito das gentes, definida em 1775 por Emer de Vattel como: "A ciência do direito que tem lugar entre Nações ou Estados, assim como das obrigações correspondentes a esse direito.", ou seja, a especialização que é conhecida hoje como Direito Internacional Público, e que deveria abranger também os Direitos Humanos. Outra inspiração para o livro vem do tratado do filósofo Immanuel Kant, A Paz perpétua, lançado em 1795, que se tornou a base do Direito Cosmopolita, considerando que os indivíduos devem se comportar pacificamente com o intuito de se alcançar a paz de convívio mútuo. Na introdução de Taís Franciscon, O deserto prega nos homens / O livro das catástrofes, fica claro que os poemas deste livro irão refletir uma visão muito realista – e nada pacífica – do direito das gentes, como ocorre hoje em nossa aldeia global e que, infelizmente, está muito longe do ideal de hospitalidade de Kant: "temos fronteiras quase intransponíveis para os refugiados, mas conseguimos preservar o mercado global predatório." O que chama a atenção nesta obra de Pádua Fernandes é a estranheza dos temas abordados com a poesia dita tradicional, fato que o poeta deixa claro nestes versos: "Matéria nova de poesia: / não mais pássaros ou abelhas, / ultrapassados seres vivos, / porém as nuvens radioativas, / se espalham mais rapidamente, / desfazem a matéria em gesto / e geram cantos e zumbidos / muito mais lancinantes. // Nova matéria, / a radioativa, / pois seu silêncio / é todo grito. // Matéria nova, / a radioativa, / pois toda pássaro, até na queda." (Museu da sustentabilidade - IV - p. 25) A poesia do nosso mundo contemporâneo é triste e sem esperança, corresponde a uma visão muito próxima da catástrofe e da guerra; de um capitalismo destruidor do homem e da natureza, que só considera as leis do Livre Mercado: "o cosmopolitismo da bomba, / mais universal do que o humano; // destrói países, mas ergue negócios, / a bomba vende serviços de reconstrução; // cala protestos fazendo-os pagar royalties / às indústrias de música e de armas; // o cosmopolitismo da bomba / declara a igualdade universal dos destroços / que os humanos ocultavam / dentro dos corpos; / a humanidade não cria soluções / antes de elas se tornarem falíveis; // a bomba cosmopolita / fundou o concerto mundial / lasca a lasca, / juro a juro; // não precisa explodir." (Organismo da bomba - III - p. 43) Nesta situação de catástrofe global e colapso social, as baratas descobriram-se humanas e, afinal, as mesmas nos superam com vantagens na cadeia evolutiva: "As baratas aproveitaram o ensejo para dispensar os imitadores, que, atrevidos, chegaram mesmo a tentar roubar-lhes o discreto canto com aparelhos que trocavam mensagens curtas, sequências mais ou menos desconexas de signos, o equivalente a uma telegrafia de urros, mas de tão curto alcance que não poderia jamais emular a comunicação que as baratas em si logram com o sutil toque das antenas." Um poema em prosa que expressa muito bem o pessimismo generalizado (e justificado) da nossa vida feita de "mensagens curtas", uma verdadeira "telegrafia de urros". "Foi neste século que as baratas descobriram-se humanas. Elas se reconheceram quando os homens passaram a rastejar pelas frestas a procurar migalhas e gotículas que houvessem sobrado do festim dos predadores, eles mesmos. / Sabe-se que os dinossauros já haviam tentado, sem sucesso, copiar as baratas. Os homens, no fim do Antropoceno, incorreram neste plágio evolutivo: as políticas públicas logo mimetizaram o habitat das baratas; construíram-se cidades com o intuito único de abrigá-las e assim melhor conhecê-las; nas relações sociais reproduziram modelos de esgoto que eram próprios desses futuros ex-insetos; destarte, cunhou-se uma harmonia inexprimível entre os mundos sobre e sob a terra. Nunca, porém, os homens souberam imitar a paciência das antenas, e por isso entraram em desarvorada extinção, o pós-moderno não conseguiu emular o paleozoico. / As baratas aproveitaram o ensejo para dispensar os imitadores, que, atrevidos, chegaram mesmo a tentar roubar-lhes o discreto canto com aparelhos que trocavam mensagens curtas, sequências mais ou menos desconexas de signos, o equivalente a uma telegrafia de urros, mas de tão curto alcance que não poderia jamais emular a comunicação que as baratas em si logram com o sutil toque das antenas. / Aventa-se que os homens já teriam desaparecido de todo, substituídos com vantagem pelas baratas na vida pública e na privada: elas voam sem poluir. / Outra vantagem: ao contrário dos homens, não podem ser acusadas de ex-humanas." - Inseticida para humanos (p. 37)

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