OssO [2015]
Rui Zink (Lisboa, 1961-)
Teodolito, 2015, 136p. ð
As mãos empoeiradas do universo sabem o que fazem. Estava na biblioteca quando avistei um livro todo branco sem absolutamente nada que pudesse chamar atenção, leio o título OssO, e reparo no autor, Rui Zink, de quem nunca tinha ouvido falar. Contra toda a lógica do interesse ou da expectativa, abro a esmo o livrinho de bolsocapa durae a primeira palavra que reconheço é tortura, um dos temas da tese que venho desenvolvendo. Resolvo ler ali mesmo o primeiro capítulo e, após um cadinho de riso e desconforto, levo o OssO do Rui pra casa. ð
A obra já começa no palíndromo que forma seu título, escrito com dois Os maiúsculos que lembram algemasitem que pode tanto constranger os movimentos de uma pessoa, quanto forçar conexão entre outras duas. O livro é dividido em capítulos-cenas estruturados inteiramente como diálogos entre duas personagens: um interrogador de um país hiper-protecionista (que podemos imaginar como os EUA), marcado pelo texto em negrito (forte, opressivo), e um terrorista que (não) tentou explodir uma bomba (identificado como de origem islâmica), grafado simpaticamente sem negrito. ð
Trata-se de um texto de humor, sem dúvida, que lembra o teatro do absurdo do pós-segunda guerra, com seus jogos de palavra, becos sem saída e armadilhas tautológicas. Aos poucos os papéis de vítima e algoz perdem seus contornos e muito facilmente, como sempre será fácil em regimes que flertam com a tortura (apesar de não chamá-la pelo nome), os referenciais de certo e errado são relativizados até o ponto de se perder de vista qualquer humanidade. Mas uma vez mais a imaginação salvará o dia, desfecho (não spoiler) indicado, também de antemão, pelo percurso traçado pelos títulos dos capítulos: forma, vazio, uma ideia, amizade, amor, fé, imaginação, mundo. ð
OssO não está publicado no Brasil, nem qualquer outro livro do Zink de que tenho notícia. Mas talvez seja melhor assim: se ainda sequer possuímos o consenso de que torturar é mau e precisamos defender direitos humanos básicos, que faremos com este livro em terra de presidente que homenageia torturador?