Cosmópolis -

    Don DeLillo

    Relógio D'Água
    2004
    184 páginas
    6h 8m
    ISBN-13: 9789896412951
    Português

    Décimo terceiro romance do escritor italo-americano Don DeLillo, "Cosmópolis" passa-se num único dia (tal como o "Ulisses" de Joyce) de Abril de 2000, antes da subida do iene e da queda dos florescentes mercados financeiros dos anos 90. Eric Packer é um multimilionário que enriqueceu com a bolsa, tem 28 anos, e decide sair da sua rica mansão e tomar a limusine para ir cortar o cabelo, pelo que tem de atravessar Manhattan. Esta travessia (há um grande engarrafamento, está claro) torna-se uma viagem vertical, um autêntico desfile de figuras e acontecimentos bizarros, paisagem da moderna alma ocidental de fim de século.

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    João Guilherme Gurgel29/11/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Money!, - it’s a crime.

    Don DeLillo, como por ele admitido em milhares de entrevistas, foi profundamente inspirado pelo cinema; a sua narração é como uma câmera, que, Godardiana, entrelaça o que é vivido com o próprio interior do personagem, como se a visão do que é retratado e o retratado em si fossem postos em concomitância, paralelamente, mas, jamais, com um sobrescrevendo o outro. Narrativamente falando, pouco importa; a vida de Eric Parker, um yuppie multi-bilionário, está em suas mãos, como se bastassem teclas e monitores para tudo ser por ele resolvido. Mas aí que está a graça; em sua limousine, parte para cortar o cabelo do outro lado da cidade, - e com o minguar do dia, as rédeas saem de suas mãos. Ou, podemos ver, não é que saem naquele exato dia, onde deve lidar com um trânsito quilômetro, manifestantes irados, encontros amorosos, apalpações na próstata, a descoberta de que um homem deseja imensamente mata-lo, - mas é ali onde há a constatação. Há a leitura social, obviamente, onde vemos como o capitalismo é um sistema insustentável, autodestrutivo, onde as previsões estão fadadas ao fracasso; mas também há a psicológica, que permeia toda a obra do autor, quando vemos que um homem, por mais rico que seja, não é capaz de lidar com sua própria infelicidade, com o seu desânimo diante suas impotências de previsão, seu relacionamento aos frangalhos, tudo que o dinheiro não compra. Tudo isso é narrado com frases curtas (extremamente inspiraras em Hemingway), que, concisas, sugam o leitor para o texto; os personagens de DeLillo, que usualmente já são desta forma, estão no auge de suas idiossincrasias, no píncaro do Kafkiano; é como se víssemos pequenos fragmentos de um Teatro do Absurdo, romanceado de forma extremamente cinematográfica. O final, em aberto, pode não agradar à todos, mas eu creio, particularmente, ser um charme da obra (se bem que sou suspeito para falar, dado que estamos falando de um de meus escritores favoritos). Creio que seja não só uma excelente porta de entrada para o autor, mas um preciso termômetro para saber se sua escrita irá lhe afeiçoar. Esta escrita, gostando você ou não, é fundamental para entendermos, ou tentarmos entender, todos os meandros que permeiam a pós-modernidade.

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