Você é um amante da imagem ou do real?
Uma ótima ficção. (Alerta de spoilers) Intruso traz a história de um casal que recebe uma visita com uma proposta irrecusável. Mas, diferente do que isso geralmente soa, é irrecusável porque é apresentada como um programa do governo sem opção de declínio. A minha experiência com o livro foi afetada pelo filme. Na verdade comprei o livro assim que terminei de assistir o filme e a adaptação é muito bem feita. Tanto o filme quanto o livro trazem o desconforto, a confusão do personagem principal e instigam o leitor a tentar entender o que está tão estranho, o que está acontecendo de verdade em meio às explicações tão elaboradas de Terrance. Ao longo da história chega a ser difícil entender como alguém pode ser tão passivo diante de um cenário absurdamente invasivo quanto ao proposto na história. Não digo isso, porém, como um demérito da história ou da narrativa. Tem histórias, independente do formato, que a passividade e/ou a atitude dos personagens simplesmente me afastam. Aqui, por mais discorde da postura de Junior e tenha ficado incomodado com isso muitas vezes, entendi que a aceitação dele para com a estranheza da situação é simplesmente a natureza dele. Ele é assim. Ao passo que a estranheza foi sendo mais habitual, Junior passou a identificar alguma grandeza em fazer parte de tudo aquilo, mesmo que custasse sua vida como a conhecia e a felicidade de sua esposa, este um ponto muito interessante abordado pela história. Junior, para além de alguém extremamente estável e pouquíssimo aberto a mudanças, é alguém que não entende como alguém pode querer algo melhor, ou simplesmente diferente (veja só). O que ele pensa sobre algo deve ser daquele jeito, é impossível que alguém pense ou sinta diferente, e se o faz, se decide mudar é loucura. É loucura que o mundo não gire ao redor do Junior. E o substituto, ao lidar com a dor e o sentimento de estranheza e sufoco de Hen, aprendeu - verbo ausente na mente do Junior original - a tentar entender o silêncio dela. Por mais que inicialmente pensasse como seu eu original, que tudo devia ser acerca de si, passou a nutrir um cuidado e interesse por ela genuínos, e diante disso se esforçou para melhorar para ela de alguma maneira. Cogitou negar o projeto da OuterMoore independente das consequências, coisa que o Junior original não faria - nem fez. Hen, vivendo um turbilhão meemo antes da partida do Junior original, se viu menos perdida, mesmo que a custo de tanto sofrimento, ao conviver com o substituto e novamente com o original. O homem com quem ela havia se casado se importava consigo mesmo e com a manutenção da imagem que construiu de Hen, mas com ela? Talvez ele nunca perceba que é apaixonado pela imagem perdida no tempo e não por ela mesmo, e então temos o fim do livro. Eu particularmente gosto de histórias que deixam a gente pensando e teorizando. Os besouros pela história são um mistério a parte, mas dão pistas. A forma como os originais e as réplicas reagem a eles é diferente, e -SPOILER- por isso creio que Hen, no fim, teve pena (?) de Junior e pediu uma cópia de si para ele, sem combinar nada, mas para agarrar sua liberdade deixou para traz a imagem de si que Junior tanto queria. Sua carta em branco nunca será entendida por ele, e nem fará sentido ser lembrada, porque agora ele possui a 'Hen perfeita', que vive em função dele e do que lhe agrada. Ele que chamou sua cópia de coisa vai viver com 'uma coisa' sem se dar conta da diferença, porque deseja apenas ser satisfeito, e a OuterMore estará lá para ele. A ficção por vezes traz a reflexão do real. É a realidade com uma "skin surreal". Ao longo da leitura me peguei refletindo sobre quantos de nós não vivem em função de manter um status quo emocional? Mesmo que isso custe a felicidade de quem está a sua volta, esposa, filhos, amigos... quantos de nós não conseguem conceber que o outro pode desejar melhorar, mudar, tomar novas decisões que não são necessariamente produtivas? Reid é certeiro em expor a fragilidade e o egoísmo do eu que está sempre em busca do agrado do eu e não com a felicidade do dividir, das diferenças, do ouvir, do ser ouvido... Leia antes de ver o filme, mas se possível faça ambos pois vale a pena.
