Até metade do livro fui lendo dispersamente, afinal, o que havia eram descrições extensas de Manderley e o enfadonho e repetitivo senso de inferioridade da nossa nunca nomeada Mrs. de Winter. O que movia meu interesse era o desejo de descobrir o que aconteceu para que as personagens tivessem o destino descrito no início, o que as assombrava, além de que, pelas condições e caráter do casamento, conflitos eram esperados. Uma vez, então, que a verdade (ou maior parte dela) foi revelada, a leitura fluiu como um raio. E que grande virada de chave, um verdadeiro plot twist, que logo foi seguido de outro e de outro. Me interessa muito, também, a moralidade volúvel daquelas pessoas, que de certa forma me contagiou também. Eles sabiam e não falariam, proteger a Maxim era proteger a si mesmo. E o horror do assassinato é ofuscado pela satisfação do "nunca amei Rebecca". E só quando ela adquire a confirmação do amor de Maxim que Mrs. de Winter finalmente cresce, deixa de agir como inferior. Ao fazer isso, porém, acaba se tornando como a falecida esposa, pois a obra trabalha com essa dicotomia: ser jovem e insegura ou ser mais velha e possuir todas as qualidades (e vícios) atribuídos a Rebecca. Não é à toa que Maxim lamenta esse "crescimento" figurativo da esposa todas as vezes que o presencia (no jantar em que ela se imagina como Rebecca, perto do fim quando ele reconhece a mudança interior dela). É estupendo que, ao fim, em sonho, ela se olhe no espelho e veja Rebecca, enquanto Manderley se tornava não mais. Excelente livro.