Ainda em um esforço para preencher o longo espaço temporal entre a crônica de Machado de Assis e a de Rubem Braga, é preciso considerar a produção de Alvaro Moreyra (1888-1964), escritor que, embora tenha nascido no Rio Grande do Sul, fez sua carreira já no Rio de Janeiro. Em geral, não é tarefa simples encontrar livros de crônicas editados na década de 1920, mas, felizmente, de Alvaro há uma reedição recente de A cidade mulher, originalmente de 1923 (Mauad X; FAPERJ, 2016), significativo trabalho que oferece farta fortuna crítica sobre o escritor, com nada menos que quatro ensaios, um à guisa de prefácio e os demais ao final do livro.
As crônicas de Alvaro Moreyra apresentam extensão variável e é interessante observar que algumas são bem pequenas, menores do que o tamanho usual do gênero nos dias de hoje. Já ia longe o tempo das enormes crônicas-folhetins, mas as várias páginas ainda perfaziam o que se convencionou chamar de crônica-reportagem, que, contudo, não tem muita relação com o estilo que se tornaria tradicional no gênero. Alvaro Moreyra, por sua vez, parece estar mais próximo do que fariam os cronistas do período clássico. É possível que o tamanho reduzido de algumas crônicas atendesse aos imperativos do espaço jornalístico, e não os da sua inspiração.
A partir do próprio título, fica evidente que o cronista busca delimitar o conteúdo do seu livro a um espaço geográfico específico, isto é, a cidade no caso, o Rio de Janeiro. A relação com a cidade é uma particularidade da crônica desde a época dos folhetins de Francisco Otaviano, quando o cronista era um comentarista dos eventos e das notícias que afetavam o cotidiano local. De fato, não apenas o tempo, mas também a geografia é caracterizadora do modo como os cronistas preenchiam o espaço recebido do jornal, cujo conteúdo, afinal, primava pela atualidade e se concentrava nos acontecimentos da própria cidade em que era impresso.
Com o passar do tempo e a absorção de um espírito poético por parte da crônica, que então se distanciaria da narração objetiva, a cidade passou a ser tratada como um ambiente de certo modo mítico, frequentemente com adjetivos que a personificam. No caso desse livro de Alvaro Moreyra, a cidade se transformou em mulher. A princípio, essa associação entre a cidade e a mulher parece refletir uma alegada incompreensão do cronista por ambas. O cronista, porém, antecipa o culto à mulher bonita, típico do período clássico do gênero, e não o deixa de fazer com machismo (a despeito da esposa feminista). A sua cidade mulher, pois, é também bonita.
E ele canta, de fato, a graça e a beleza que pairam sobre a cidade, além da própria juventude, pois, na sua perspectiva, o Rio de Janeiro se rejuvenescia conforme os anos passavam. Em uma interessante abordagem, Alvaro não se limita a revelar como a cidade era naquela época, mas também reflete sobre como ela chegou a ser daquela maneira, evocando, para isso, tanto o Brasil-Colônia como o Brasil-Império. O cronista compara as épocas e suas modas, o que vale tanto para a cidade como para a mulher, em uma visão em geral otimista, mas eventualmente não tão justa para as mulheres, que parecem presas à sua noção de beleza, simpatia e doçura.
É significativo observar como Alvaro se insurge contra os moralistas do seu século, as forças que tentavam conter ou dirigir o avanço da cidade, como a polícia de costumes, a decretar quais os trajes aceitos na praia de Copacabana. Ao se atentar ao passado para tratar do presente da cidade, o cronista também projetava o futuro dela. Há um momento em que diz que o feminismo, como vai, acabará tomando conta do mundo, mas faz um uso equivocado do conceito, como se o movimento fosse nivelar as mulheres a ponto de acabar com a carioca. A singularidade da cidade, que se queria preservar, também era a das mulheres que ali viviam.
O cronista acompanha a vida noturna da cidade, com seus cinemas e teatros, faz referência a bondes, relata encontros com tipos chatos (e esse é um dos possíveis pontos de contato com a crônica de Stanislaw Ponte Preta, que com frequência é associado a Moreyra) e acompanha o desenrolar das estações, inclusive cantando o início da primavera, em um tipo de crônica que se tornaria quase obrigatório para os cronistas depois de Rubem Braga e Vinicius de Moraes. Moreyra efetivamente vivia a cidade e captava as suas tendências e as suas motivações, com a eventual citação de notícias que afetavam o cotidiano local, como já era feito nos folhetins.
Outro aspecto a se destacar na produção desse livro é que ela já problematiza o jornal, isto é, o cronista já demarca uma oposição entre o tipo de conteúdo que escreve e o que preenche as páginas à sua volta. Isso é especialmente perceptível em Monólogo ingênuo, na qual há um personagem que critica o fato de termos nos tornado expectadores de misérias, o que faria com que não percebêssemos as divinas formas de graça e da alegria. A crônica foi, ao longo dos anos, se firmando como um espaço que nega a retórica e os valores-notícia do jornal e oferece uma perspectiva, em tese, mais humana. Isso já é insinuado na crônica de Moreyra.
Entre as reflexões críticas que ele faz sobre a imprensa nesse livro, uma das mais interessantes diz respeito à necessidade dos escritores de então de escreverem na imprensa para só então conseguir editar os seus livros. Isso tem um evidente lado ruim, mas Moreyra vê um ponto positivo também, já que, sem a obrigação de escrever na imprensa, muita coisa se perderia, porque a preguiça do escritor o faria adiar para sempre o momento da escrita. Evidencia-se, assim, que o jornalismo não era meramente uma característica que se imiscuía na crônica, mas o próprio responsável por fazer com que ela viesse a lume, pois forçava a atividade do escritor.
Nessa seleta de crônicas, Moreyra fez também alguns perfis de escritores do seu tempo, como Mário Pederneiras, João do Rio, Olegário Mariano, Ribeiro Couto, o ótimo Benjamin Costallat (aliás, seu editor) e o português António Ferro, além de outros antigos, como Castro Alves. Há um ou outro texto mais afeito ao conto, algumas sacadas humorísticas, e, de maneira geral, as pequenas cenas da cidade, com nota às vezes poética, às vezes bem-humorada, sem falar em alguns quase aforismos, também uma estratégia para preencher o espaço do jornal. Vale a leitura, inclusive dos ensaios, que ajudam a resgatar a memória de um importante cronista.
Palavra recorrente no livro: moda.