O Verde Violentou o Muro -

    Ignácio de Loyola Brandão

    Círculo do Livro
    1989
    301 páginas
    10h 2m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Durante quinze meses, entre 1982 e 83, Ignácio de Loyola Brandão viveu em Berlim, a convite do governo alemão, "um dos tempos mais instigantes e curiosos de minha vida", uma experiência inesquecível contada em O Verde Violentou o Muro. A antiga capital alemã ainda estava dividida pelo muro, um contraste brutal entre duas sociedades. Do lado oriental, o povo, em sua maior parte proletário, levava uma vida sem perspectivas, alimentando rancores e ressentimentos. No ambiente cosmopolita e rico da parte ocidental, cheio de lojas elegantes, em plena prosperidade, a presença do muro lhe conferia uma aura particular de cidade "única, singular e excitante, original e louca, nervosa e adorável, independente de todas as especulações de sua problemática existência". Essa cidade refinada e sedutora foi se entregando aos poucos ao visitante, num longo e lento jogo de sedução. No início, dificuldades com o idioma, irritação com a rigidez dos hábitos alemães, tensão, decepções, carências. Falta até do toque do brasileiro, aquela mania de pôr a mão no outro ou pegá-lo, enquanto conversa, "necessários a uma comunicação". Os alemães, ao contrário, consideram o gesto uma invasão de privacidade. Superada a fase de surpresas (as manifestações políticas ordeiras, com a presença até de bebês de colo) e inquietações (a falta de cor nas ruas, o "cinza constante, de cabo a rabo na Alemanha"), a descoberta de prazeres insuspeitos, como andar de bicicleta pela cidade ("Berlim com bicicleta é outra coisa"), uma riquíssima vida cultural, viagens pelo país, numa conquista persistente e diária. Logo, o conquistador estava conquistado. Anos depois, ao regressar a Berlim, Loyola compara as duas cidades, aquela em que vivera, e a surgida após a queda do muro, como uma metáfora do reencontro de um povo, mas também a vitória da árvore verde da vida.

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    Phelipe Guilherme Maciel picture
    Phelipe Guilherme Maciel22/03/2017Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Um lindo retrato berlinense pelos olhos de um dos brasileiros mais poéticos que já li.

    Loyola magistralmente fez um livro de viagens se tornar numa das leituras mais poéticas que experimentei nos últimos tempos. Ao narrar sua experiência em Berlim, ele utilizou-se de fluxos de consciência, mas o que torna isso mágico é que ele utilizando-se de fluxos de consciência, lançados ao livros em "capítulos" curtos de menos de 1 página cada, ele conseguiu criar uma história cheia de nexo de significado. Espere por um livro que fale do cotidiano, que seja poético, que fale sobre o muro de Berlim, Hitler, 2° Guerra, Política Alemã, Brasil e brasileiros, tudo pela ótica simples deste paulista que se recusa a ver cinza. O verde violentou o muro. "Como se alojam as pessoas? Se amontoam aonde? Por que não vejo ninguém nas portas de igreja, nos bancos de jardim, embaixo das pontes (e há mais de 500 só em Berlim), viadutos? Não vejo favelas, malocas, barracos de madeira ou zinco. Conheço centenas de prédios deteriorados, mas nada daquilo que numa linguagem brasileira possa traduzir miséria, maloca, não-habitação. Ficou um mistério.O que existe na verdade: estudantes e famílias inteiras morando sem calefação. Gente morando em apartamentos sem banheiros, sem duchas, apenas com um sanitário."

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