Céu Amarelo -

    Roberto Roal

    Companhia Ilimitada
    2018
    335 páginas
    11h 10m
    ISBN-13: 9788588607460
    Português Brasileiro

    Livro inaugural do autor, Céu Amarelo é uma novela de formação, destinada ao público juvenil e adulto. Nela é apresentada a saga de Nicolau, jovem brasileiro contemporâneo, descendente de imigrantes ibéricos e russos, recém-saído da universidade. Trata-se de um rapaz reflexivo e amante da literatura, que constantemente coteja suas experiências e pensamentos com as de autores que aprecia. Frequentemente, Nicolau sente o deslocamento e o mau-estar de viver em um mundo no qual pressente o que chama de entulhos. Estes seriam os muitos obstáculos que vicejam em sociedade e que dificultam a ele e à coletividade uma vida plena e feliz. Em confronto com os dilemas de sua juventude, segue seu caminho sem deixar de se preocupar com o destino do Brasil e do mundo, vivenciando os prazeres e as violentas injustiças e contradições que permeiam a existência. Movendo-se entre aspirações e questionamentos, deixa São Paulo para iniciar sua vida adulta. A jornada de Nicolau é cheia de percalços e aventuras, levando-o de Brasília para comunidades quilombolas do Maranhão, e daí até a famosa Paris em busca de um grande amor.

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    Anna Luiza26/04/2026Resenhou um livro
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    Céu amarelo: referências que atravessam narrativas

    Gostei do livro, apesar de, em grande parte da leitura, ter sentido a exigência de continuar pela disciplina e não pelo prazer. Ainda assim, a escrita é relativamente estética, e aprendi palavras novas e bonitas. Comprei o livro inicialmente com a ideia de que leria uma história cujo cenário seria Brasília, minha cidade natal, onde sempre vivi. No entanto, coitada: foram apenas umas 20 páginas nesse lugar, se não menos. Em vez disso, grande parte da história se passa no Maranhão, em uma comunidade quilombola na floresta amazônica. Nesse contexto, acompanhamos os vários devaneios de Nicolau, jovem idealista e reflexivo, recém-formado em Direito, descendente de uma russa e de um brasileiro. A narrativa começa, inclusive, pela história de seu pai, Joaquim — um sujeito comum, mas também inseguro e cheio de crenças, como um típico homem da classe média brasileira. A partir dessas vivências, constrói-se o pano de fundo para a exposição da corrupção, descrita de forma genérica, que reinava naquela região e prejudicava uma comunidade há muitos anos invisibilizada. Além disso, nota-se a forma violenta de manutenção do poder por aqueles que se aproveitam do sistema, bem como o jogo de relações superficiais e manipuladoras que sustenta esse grande teatro denominado política brasileira. Nesse sentido, as problemáticas apresentadas acabam soando genéricas. Por mais que o autor tenha querido (e eu tenha sentido) trazer à tona a política e o caráter heroico do personagem, esse arquétipo não colou. Por isso, não consegui aclamar Nicolau como herói. Ele parecia passar mais tempo lendo, tocando violão e se banhando no rio do que resolvendo alguma coisa. Talvez não fosse interesse do autor expor jurisprudências e outros juridiquês na história. Ainda assim, um pouco disso teria acrescentado profundidade e criado elos mais consistentes na narrativa. Por outro lado, entre as passagens em Brasília e em São Paulo, a parte de que mais gostei foi quando Nicolau vai para Paris atrás de Lana, uma jovem que, como ele, também é descendente russa. Até então, ele só havia escutado falar dela. No entanto, mesmo ainda como desconhecidos, descobre várias coincidências que os aproximam e alimentam suas romantizações. No fim, o que os une é o livro Grande Sertões: Veredas: ambos estavam escrevendo sua tradução para o russo. Justamente por ser tão citado ao longo da história (e por ser recomendação de uma pessoa muito querida), concluí a leitura com ganas sinceras de ler o referido clássico. Além disso, em um plano mais simbólico, e com a conclusão da leitura, entendi melhor o título do livro. Ele faz referência a um desejo de Nicolau que, ao se ver tomado por admiração e amor por Lana, sente que poderia desejar qualquer coisa e vê-la se realizar, como, por exemplo, desejar um céu amarelo. Talvez esse céu represente um mundo em que o sol brilhe verdadeiramente para todos. Retoma-se, assim, o caráter justiceiro, idealista e genuíno do personagem, que anseia por um mundo melhor e se enxerga como agente transformador da realidade social. Diante disso, a principal percepção que me ficou foi a seguinte: o fio narrativo funciona mais como pano de fundo para que o autor exponha referências, pensamentos e reflexões do jovem Nicolau. São justamente esses trechos que mais me interessaram. Ao longo da leitura, aparecem a insatisfação com a desigualdade no Brasil, crises e reflexões existenciais, Eduardo Marinho e sua crítica ao consumismo, além de referências a João Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, à Bíblia e a Nietzsche, como presenças que atravessam e influenciam a construção do pensamento do personagem. Nesse sentido, percebo que seria o tipo de livro que eu escreveria: não pela narrativa em si, mas como uma forma de sintetizar a base dos meus pensamentos e das minhas principais referências, como um compilado do que guia minhas opiniões e angústias. Soma-se a isso o fato de Nicolau ter a minha idade, o que tornou essa identificação ainda mais interessante. Assim, a leitura me levou a uma conclusão clara: o livro não se sustenta tanto pela narrativa, mas pelas referências que o atravessam.

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