Loveless: Terra Sem Lei - Volume 1 (Vertigo / Loveless - Terra Sem Lei) - De Volta Pra Casa

    Brian Azzarello, Marcelo Frusin

    Panini Comics
    2010
    132 páginas
    4h 24m
    ISBN-13: 7897653512546
    Português Brasileiro

    Wes Cutter é um homem procurado fugindo de um passado violento — os horrores da Guerra Civil que assolou os EUA —, das memórias do tempo que passou num campo de prisioneiros da União e da selvageria da Reconstrução. Mas agora ele voltou para casa numa cidade repleta de mistérios, em busca de sua esposa Ruth — uma mulher atormentada e dona de seus próprios segredos. Como Bonnie e Clyde saídos do inferno, esse casal vai rasgar o oeste norte-americano em busca da única coisa que sempre escapou de seu alcance: paz. O roteirista vencedor do prêmio Eisner Brian Azzarello (100 Balas, Hellblazer) se reúne com o desenhista de Hellblazer, Marcelo Frusin, para contar uma história brutal que combina a ação e a atmosfera de um filme dirigido por Sergio Leone (diretor de Por Um Punhado de Dólares e Três Homens em Conflito), estrelado por Clint Eastwood e com o clima do seriado Deadwood, da HBO. Este volume reúne as edições 1 a 5 da série Loveless em 132 páginas de quadrinhos.

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    Mano Cantanhêde 20/08/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    De volta pra casa

    A mais mortal das guerras, em pleno solo norte-americano. Seiscentos e vinte mil soldados mortos, mais casualidades civis. União contra Confederação. O fim da escravidão, a integridade do território dos EUA e a reconstrução do país. Isso foi a Guerra Civil Americana. E isso, como tudo na vida de Wes Cutter, é parte do passado. Entretanto, em Blackwater, o passado tem cicatrizes mais abertas do que no presente. Daria pra dizer que Loveless, então, é sobre isso; rancor e vingança. Sobre a tragédia de Cutter e sua mulher, Ruth. Mas isso seria deixar todo o processo e história da Guerra Civil de lado. Assim como seria esquecer do “cão raivoso” Atticus Mann - que crescerá muito, na trama. Seria esquecer sobre o ódio, a violência, o racismo, do sexo, da morte... Em Loveless, fatalmente, esses elementos estão totalmente conectados. Assumidamente uma trama western spaghetti, eis uma HQ que supera, em muito, a sua proposta. Passando-se dois anos após o fim da guerra, a história que Brian Azzarello nos apresenta carrega tudo isso já citado, acima. Porém, na realidade, está bem além disso; mesmo com o próprio Azzarello dizendo que é uma “história sobre amor, e sexo”, está mais sobre “o mal que reside nas pessoas”. Tanto que, inclusive, na primeira edição americana, há a chamada: “Por trás de todo homem mau, há uma mulher muito má!”. Mesmo amor e sexo são eclipsados por essa coisa de “a situação faz o vilão”, e ninguém é inocente, em Blackwater e em Loveless. Eis uma versão resumida deste primeiro arco: após lutar - e perder - ao lado da Confederação, Wes Cutter decide retornar ao seu lar, às suas terras. Nisso, o passado, mais uma vez, retorna e precisa ser resolvido de alguma forma: seja com os habitantes da cidade, que o odeiam, seja com as forças armadas da União, seja com Ruth. Nesse meio tempo, Cutter enreda a todos com suas mentiras, tramóias e assassinatos específicos. Tudo buscando benefício próprio e, claro, vingança. Vingança o move, tanto desperto quanto em pesadelos. E é tudo sobre aprendizado, como o personagem coloca, na última página. Talvez, lendo apenas este texto, até agora, você não tenha entendido o que é, de fato, Loveless. Se é algo como Por Um Punhado de Dólares, se é um thriller como 100 Balas, do mesmo autor, ou se é uma história de violência - ao estilo do seriado Deadwood. Mas, como já disse, é tudo isso. Só lendo, mesmo, para compreender o que está acontecendo. São muito e muitos elementos, elencados com extrema eficiência por Brian Azzarello - autor que, creio eu, dispensa apresentações. Pessoalmente, para produzir esse review, li muita coisa sobre a série e, também, sobre os EUA e a Guerra Civil. Porém, ao final da pesquisa, me dei conta que mesmo que falando por páginas e páginas de aspectos históricos, sociais e culturais, não explicaria nada. O mais simples para dizer é concordar com a sinopse da Panini, na última capa: Wes e Ruth procuram por paz. Paz que todo um país não conheceu, antes e depois da guerra. Publicado originalmente em 2006, a série foi cancelada na vigésima quarta edição. Não encontrei explicações, considerando o trabalho sem par de Azzarello e Marcelo Frusin. Artisticamente, a série surpreende; Frusin, com um traço simples, mas muito elaborado, possui um dinamismo e diagramação que poucos artistas, atualmente, possuem. Da página 57 a 61, por exemplo, quase se vê os movimentos durante o morticínio realizado por um dos personagens. Não é um tiroteio posado, como se tem em algumas publicações - onde, em geral, o personagem “mais importante” fica em pé, parado no meio de seus algozes, alvejando todos sem ser atingido - e, sim, uma escaramuça de subterfúgio, técnica e velocidade. Frusin, também, trabalha muito bem com a compleição facial dos personagens, retratando muito bem a malícia ou maldade por trás de cada gesto ou intenção. Sem falar no toque sombrio, onde entre chapéus e sombras bem aplicadas, raramente se vê rostos inteiros, lembrando muito o trabalho de Mike Mignola. Outro ponto alto são as capas. Do mesmo desenhista, possuem uma composição e colorização diferenciadas. Para facilitar, menciono apenas a principal, onde ocorreu uma mescla notória de elementos. Cutter, o pistoleiro em primeiro plano, parece mirar para fora da ilustração, ameaçando o leitor, inclusive. Novamente, nos três personagens ao fundo, o dinamismo e sinergia da cena dão a perfeita idéia de um tiroteio; mesmo sem muita imaginação, você visualiza facilmente os sujeitos sendo baleados, um tiro após o outro, a reação deles e, enfim, quando caem para a morte. É cinematográfico. Falando em cinema, a silhueta feminina, agregando e “fagocitando” os elementos anteriores, insere um clima noir ao contexto, e cede uma noção perfeita da importância das mulheres na trama - e do sexo, sem dúvida. Falando em mulheres, como não amar Ruth? Embora eu não tenha encontrado afirmações nesse sentido, tenho certeza que Azzarello a criou para acabar com aquela idéia de personagem feminina submissa, histérica e dependente de um homem, como o gênero western - e muitas outras mídias e HQs - mostra com freqüência. E as diferenças são bem evidentes; enquanto seu marido apela pra intriga e lábia - percebam que ele só pega em armas, neste arco, quando inevitável, logo no início -, Ruth é o braço armado, eliminando quem se mostra um empecilho, seja numas de franco-atiradora, seja em combate aberto. Em um anacronismo exagerado, é uma amazona de verdade. Com um Winchester - ou algo assim - nas mãos. E, diferente de Sarah Connor ou Ellen Ripley, não fica masculinizada ou assexuada; sua feminilidade é importante para a trama e para ela própria, mesmo apelando pro velho clichê de disfarçar-se de rapaz. Por fim, ficou uma produção muito boa. A Panini está de parabéns, até pela questão da adaptação, tratamento e, sobretudo, pela iniciativa. O editor Fabiano Denardin afirmou, no blog brasileiro do selo Vertigo que, provavelmente, a série será publica em quatro volumes, no Brasil. Que venham logo. Só fica a dúvida, agora, se Azzarello conseguiu dar uma conclusão à série - sua intenção inicial, afinal, era prolongar a história até 1940, segundo alguns sites - e, assim, o que leva a DC Comics a uma decisão editorial equivocada dessas. Sinceramente, não entendo, mas espero possuir toda a série em minha coleção, em local de honra. Loveless, enfim, poderia ser sobre Wes Cutter e Ruth. Poderia ser sobre Atticus Mann ou Boyd Johnson, dois lados diferentes da mesma moeda de ódio e violência. Poderia ser sobre qualquer um dos aspectos já citados. Mas, na verdade, é sobre liberdade e, sobretudo, oportunidades. Oportunidades que, no oeste norte-americano posterior à Guerra Civil, criam assassinos, monstros e todo o tipo de escória. E amor, também, claro. Melhor Frase: “As pessoas são merda. É verdade o que nós lemos sobre Deus ter criado Adão, ter soprado vida no barro, mas, antes disso, Ele já tinha criado as bestas do campo. E de uma coisa você pode ter certeza. Elas fazem merda. Merda de cachorro, merda de vaca, merde de cavalo, merda de porco... Merda de galinha... Não importa. Era merda. Apenas merda. E Ele modelou o homem a partir dela. Então vá e lute, se é o que deseja. Mantenha a cabeça baixa e esteja sempre alerta.” Jonny Cutter, ensinando ao seu irmão mais novo, Wes, a verdadeira natureza das pessoas.

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