Mais inacreditável do que as tramas ficcionais!
Eu era ainda criança quando vi na televisão uma história absolutamente fantástica que teria se passado durante a Segunda Guerra Mundial: para iludir seus inimigos alemães sobre o local do desembarque do Dia D, os ingleses teriam inventado um acidente aéreo com um falso oficial que carregava papéis sigilosos inventados. Na época não existia internet para verificar a veracidade daquela história. Nem canais de streaming, para assistir novamente. Nem mesmo tevês a cabo. Mesmo assim, aquela história fantástica ficou na minha lembrança. Em 2010, com o lançamento do livro Operation Mincemeat, do jornalista Ben Macintyre, eu descobri que a história, afinal, era verdadeira. O programa que assisti na minha infância, nos anos 1970/1980, havia errado no evento histórico. O desembarque a que se referia a operação de inteligência não era o da Normandia. Ocorreu na Sicília em 1943 e foi a primeira vez que tropas aliadas fincaram os pés em território europeu desde a avassaladora campanha da Blitzkrieg, em 1940. O baú de Montagu Operation Mincemeat voltou ao meu radar por causa do lançamento, em abril de 2022, do filme O Soldado que não existiu, produção original da Netflix. Eu nunca o havia lido, apesar do meu interesse pelo tema e por essa época, e resolvi lê-lo por causa do filme. Sábia decisão. O livro é muito mais detalhado do que a história contada na telinha. Ben Macintyre Ben Macintyre, um historiador que atuou como jornalista e já escreveu 13 livros de não-ficção quase todos sobre espionagem em diferentes momentos históricos , mergulhou em documentos originais da época da guerra. Ele teve acesso a esse material basicamente porque é uma pessoa extremamente detalhista. Em 2005, ele pesquisava material para outro de seus livros, Agente Zigzag, onde faz um perfil de um agente duplo chamado Eddie Chapman. Chapman havia sido chefiado por um oficial da inteligência naval chamado Ewen Montagu. Quem assistiu ao filme da Netflix sabe que Montagu, um advogado forense, foi o oficial da Inteligência Naval responsável pela montagem da Operação Mincemeat. Macintyre decidiu ler os dois livros escritos por Montagu a procura de material sobre Eddie Chapman. Num dos livros, Beyond Top Secret Ultra, escrito por Montagu em 1977, Macintyre encontrou a seguinte referência às fontes do autor: Some memoranda which, in very special circumstances and for a very particular reason, I was alowed do keep. Terminado o livro em que trabalhava, Macintyre resolveu apurar aquela história. Que documentos eram aqueles que ele havia guardado em casa? Montagu havia morrido em 1985, mas o filho dele, Jeremy, um musicista destacado na Universidade de Oxford, entregou a Macintyre um antigo baú de madeira repleto de pastas e mais pastas com documentos sigilosos do MI5 sobre a Operação Mincemeat. Detalhes preciosos Graças a esse extenso material, Macintyre foi capaz de recriar quase que um diário sobre a Operação Mincemeat, de sua concepção ao resultado final, passando pela preparação dos detalhes e execução. O livro nos mostra como os oficiais de inteligência Ewen Montagu, originalmente um oficial da Marinha Real, e Charles Cholmondely, tenente aviador da Royal Air Force (RAF) deslocado para o MI5, criaram cada detalhe da vida fictícia de um major dos Fuzileiros Navais ingleses com o objetivo de convencer os alemães de que aquele oficial havia existido e, portanto, os papéis que ele carregava eram verdadeiros. A história original Para quem não conhece a história original, é bom lembrar. Em fevereiro de 1943, os aliados já planejavam fazer um grande desembarque anfíbio nas praias da ilha da Sicília. O problema é que o alvo era tão óbvio que os alemães tinham certeza de que o ataque aconteceria lá. Preocupados em evitar mais um massacre semelhante ao de Dunquerque, os comandantes aliados determinaram que a inteligência militar britânica criasse formas de iludir os alemães sobre o alvo do desembarque. Operation Mincemeat foi apenas uma das iniciativas. Os responsáveis conseguiram um corpo de um homem em idade de serviço militar que havia morrido envenenado em Londres. Criaram uma identidade falsa, atribuindo a ele uma posição de destaque no Corpo de Fuzileiros Navais. Fabricaram documentos ultrassecretos que indicavam como alvos dos ataques a ilha da Sardenha e o litoral da Grécia. Vestido num uniforme militar, o corpo foi deixado por um submarino a poucos metros de uma praia no litoral da Espanha. Como o regime de Franco era simpático aos nazistas, apesar de ser oficialmente neutro na guerra, a inteligência britânica apostava que os espanhóis dariam um jeito de repassar os documentos aos alemães. Para ler a resenha completa, acesse o Spy Books Brasil. Além da análise do livro, você encontra lá um perfil do autor Ben Macintyre e uma crítica sobre o filme da Netflix inspirado nesse livro. Confira: spybooksbrasil.wordpress.com

