Foi apenas recentemente que descobri esse romance, enquanto folheava a História Concisa da Literatura Brasileira, do Alfredo Bosi. Ter o livro do nosso caro Teixeira e Sousa o epíteto de primeiro romance brasileiro não é pouca coisa. Após uma rápida pesquisa na internet, fiquei contente em ver que a Editora Estronho o havia lançado em 2020, em uma investida de resgate de alguns bons (e nem tão conhecidos) romances produzidos pela nossa literatura nacional.
A premissa da história e simples, e talvez revelar mais que isso seja spoiler: Laura, após o naufrágio do navio em que se encontrava com seu marido, é resgatado por Augusto e seu escravo João, em Copacabana, RJ. Pouco tempo depois, tendo Laura enviuvado no dito naufrágio, Augusto, um romântico incurável, a pede em casamento, mesmo sob os protestos de seu pai.
Disso se basta para adentrar o livro, e mais do que essa premissa, inclusive a própria leitura da do resumo disposto aqui no Skoob para o livro, acaba revelando demais a trama e fazendo perder a graça das (muitas e muitas) reviravoltas rocambolescas da narrativa (talvez uma dica para a Estronho seria não revelar tanto do livro na sinopse).
Logo no prefácio do livro, explica o autor (e daí o que é invenção ou verdade, não sei) que escreveu esse romance moral a pedido de uma virtuosa Emília, pedido esse ao qual o autor se vê impedido de recusar.
O livro, como o próprio prefácio diz, tem a finalidade de ser um romance moral. E para auxiliar essa incumbência, temos no início de cada capítulo um pequeno texto, que carrega uma premissa valorativa sobre alguns aspectos da vida, e acabam muito dizendo sobre os desenrolares subsequentes do romance.
O livro é escrito de maneira bem similar ao folhetim (não tive informações para saber se foi assim lançado primeiramente), portanto em cada final de capítulo temos algum tipo de acontecimento que nos induz a não nos aquietarmos até saber o que enfim está acontecendo. Embora o livro seja colocado pelo próprio autor como um romance moral, esta encontra-se apenas no final do livro, e até lá muita coisa, muita coisa, mesmo, se desenrola. Assim, o que não se pode é falar que esse pequeno romance é parado ou sem ritmo. Vez e outra o autor se perde em divagações entre a narração dos fatos, mas nada que prejudique o mérito da obra, ao contrário, posso afirmar que, para mim, essas digressões serviram para aumentar a ansiedade sobre os próximos acontecimentos.
Pois bem, disse que descobri esse livro por meio do livro do Alfredo Bosi, que não o apresenta com bons olhos, colocando-o como inferior aos nossos romancistas mais consagrados. Se é verdade, não posso dizer. Acredito que a função da literatura, antes de primar por uma suposta qualidade artística, precisa cumprir ao seu papel fundamental de atrair o leitor. E neste último, Teixeira e Sousa faz como poucos autores são capazes, nem que a custa de muito plot twist à la novela mexicana. O que posso afirmar com certeza é que o romance me prendeu como poucos na literatura brasileira foram capazes de fazer.
Por fim, acredito que o final da história, no epílogo, carrega em si um manifesto pró-feminista bastante relevante, se considerarmos que o livro originalmente foi publicado em 1843, cujo coração da discussão, envolvendo uma dita personagem, ora destaco:
Seja influência da natureza, seja efeito da civilização, o universal consenso tem ligado a ideia de prêmio à ideia de virtude, e a ideia de castigo à ideia do crime; mas nos vícios contra a castidade, nos vícios contra a fidelidade conjugal, nós nos esquecemos dos castigos que os seguem contra os homens, e só os aplicamos contra as mulheres!
Bem, é isso. Mais uma vez gostaria de parabenizar a Editora Estronho pelo excelente trabalho e feliz iniciativa de ser a única editora atualmente a resgatar esse clássico injustamente relegado ao ostracismo. Uma única recomendação, talvez, seria mencionar de qual edição o texto foi extraído, mas isso seria meramente para fins acadêmicos, sem quaisquer implicações ao leitor comum, como eu.
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Um forte abraço.