O Ajudante -

    Robert Walser

    Relógio D'Água
    2003
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-10: 9727088783
    Português Brasileiro

    O Ajudante (1908) é o segundo romance de Robert Walser, escritor nascido em Biel, na Suíça, em 1878 e admirado por Kafka e Musil. Como acontece em grande parte da sua obra, também este livro tem um ponto de partida autobiográfico. Por entre as suas várias profissões, que exerceu erraticamente para poder dedicar-se à escrita, Walser trabalhou com secretário e contabilista do engenheiro Carl Dubler, vivendo durante seis meses com o casal e quatro filhos na vivenda Estrela da Noite. Esta contiguidade entre a vida e a literatura é a consequência daquele "romance que nunca deixei de escrever, que permanece sempre idêntico a si próprio e que poderia ser designado como um eu-livro várias vezes retalhado e descosido." E, com efeito, Joseph Marti, o ajudante, como tantos outros protagonistas de Walser, quer antes de mais entender-se a si próprio.

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    Nanci22/03/2015Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Entender-se a si próprio

    “O ajudante” de Robert Walser foi publicado originalmente em 1908. A edição portuguesa é da Relógio D’Água, de 2006, com tradução de Isabel Castro Silva. Gostei muito de Jakob Von Gunten, considerado o romance mais importante de Walser; depois li um ensaio magnífico escrito por seu amigo e admirador W. G. Sebald, que o nomeou como “O caminhante solitário” (no Brasil, optou-se por “O passeador solitário”). De fato, Robert Walser foi um escritor-andarilho, sempre a apagar seus vestígios: “não tinha casa, não tinha livros, só tinha a roupa do corpo e escrevia em papéis usados”. De maneira simples, direta e com generosas pitadas de melancolia e humor, acompanhamos a vida de Joseph Marti – o ajudante – que vive com a família Tobler: Joseph fora contratado para auxiliar o engenheiro Tobler com a contabilidade e divulgação de seus inventos. O encanto não reside necessariamente na narrativa; o que tem de ser dito não o é apenas nas linhas. A atmosfera; os pensamentos ora confusos, ora pecaminosos de Joseph; seus passeios pela cidade; suas inúmeras idas aos Correios; sua solidão; sua apreciação pela paisagem, pela boa comida etc. acabam por nos envolver e encher de ternura. Para mim, uma leitura muito prazerosa. Para vocês, deixo outro texto * de Robert Walser que, além de representar honestamente seu talento, é prova do poder de convencimento que um artista exerce sobre nós. Robert Walser foi um artista – talvez destinado a uma silenciosa viagem de balão pelos ares; sempre na tentativa de escapar do peso da existência terrestre e flutuar de mansinho para um reino mais livre. * AQUARELA Faça alguma coisa, fale de alguma coisa. Brutus, você está dormindo! Acorde, acorde! O que eu vi hoje? Algumas aquarelas! Posso falar dessas aquarelas? Claro! Vá em frente! Por que não? O aquarelista talvez seja o folhetinista no reino da pintura. Você gosta destas aquarelas, meu caro? Sim, gosto delas. Em certo sentido, gosto até demais. Em que sentido? No sentido de que elas possuem algo apetitoso e concreto. O aquarelista vai aquarelando à medida que apela ao juízo saudável do ser humano. É como se pintasse com alegria, documentando, assim, uma razão sadia e o sentido daquilo que existe. De certo modo, ele diz ao espectador: “Pinto aquarelas porque quero ensiná-lo a amar aquilo que nos cerca”. Ele então apresenta aldeias de montanha, com a igreja numa rua estreita e, bem perto dela, muralhas de rochas que sobem ao céu, sobre as quais repousam as nuvens. Seus pequenos quadros falam; mas as cores, em tudo o que se fala nessa língua, não dizem mais do que devem expressar, ou seja, o justo e necessário. Aí ele me mostra, por exemplo, uma estrada, em cujo cerne e essência eu acredito instantaneamente. Quando um pintor me ensina a crer naquilo que pinta, é porque ele pinta bem. Seus buquês de flores retêm o que há de essencial nos buquês de flores, suas casas, o que há de essencial nas casas, os tetos, os alpendres, os suportes etc. são como devem ser, eles têm uma existência própria, acre­dita-se neles. As montanhas têm o tamanho certo. Também nas mon­tanhas pintadas a aquarela a pessoa crê sem demora. Eu poderia fazer um relato de quilômetros de extensão, mas acho que vou resumir. Ali está, por exemplo, um caminho com uma sebe, um pouco de grama, um pedaço de céu. Em Berlim, eu fazia a barba com um barbeiro que tinha o hábito de dizer: “Não tem aroma no panorama”.1 Toda vez que costumava soltar o ditado no ar, era como alguém que dispersasse as cinzas no vento. Minhas aquarelas também têm algo lançado de leve ao ar. Então eu digo: elas são minhas! Mas elas não me per­tencem. Só pertencem ao pintor até o momento em que alguém as compra dele. A você, caríssimo, cabe o belo dever de comprá-las dele, isto é: você não está comprometido a fazê-lo. Digo isso por dizer. Afirmo, portanto, que vi algumas simpáticas e inteli­gentes aquarelas que possuem no próprio ser eloquência, e não quero dizer com isso, outra vez, que acredito na capacidade do pintor de produzir imagens. Enquanto isso meu desejo é que ele encontre compra­dores. Ele também pinta borboletas. Seja como for, a natureza o enleva; ele pinta com espírito e engenho, isto é, ele não pinta, mas o pintor também não é lúdico como o poeta? Aquarelas são como pequenas peças para piano; por exemplo, sonetos e sonatas. Já estou ouvindo uma em minha mente. Sou tão musical que posso renunciar totalmente a ouvir música. Ela continua ressoando em mim, acredite no que digo. E não se esqueça de comprar, em meu nome, um pequeno quadro. Peço-lhe encarecidamente que o faça. O âmbito da arte é tão pesado e rico. As civilizações cantam, a humanidade, criança inocente, salta, respirando bem alto. Tradução de MODESTO CARONE [1. No original alemão: Im Himmel gibt’s keinen Kummel (literalmente: “no céu não há cominho”). A tradução do ditado rimado é, obviamente, apenas aproximativa.]

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