Considero um livro bem ousado para a época de publicação. Primeiro e único romance publicado por Marisa, esse livro me remeteu a uma bem planejada escaleta de audiovisual, detalhadíssima, com alguns diálogos como se fosse roteiro e não percebo o que é ficção, o que é docudrama, o que poderiam ser trechos de crônicas enxertadas nas descrições das personagens. O livro desenvolve três linguagens simultaneamente. O narrador me parece interferir com frequência, principalmente no diário que a personagem central escreve sobre a política do país e entre os diálogos, descrições que me deixaram dúvida sobre de quem seria a fala e nada disso é ruim, muito pelo contrário. Annah, a protagonista, me pareceu um alter ego sem medo de ser pego em flagrante de falsificação ideológica e as narrações transpiram uma mesma Marisa que já li nas em outras crônicas às quais emprestei meu ouvido, ou melhor, meus olhos, em leituras que os atravessaram até as lágrimas por seu texto tão confessional e um aperto de angústia lancinante em alguns momentos tanto quanto o humor leve e a ironia ferina As descrições de ambientes que Marisa faz realmente nos coloca dentro deles e quem esteve em algumas de suas crônicas, tem memória ativada por elementos comuns nas seguintes, de modo que, os ambientes de Annah e seus amigos me pareceram extremamente familiares e isso acrescentou muito à leitura. Dou uma olhada nas orelhas do livro, escritas por Antônio Carlos Villaça que minha ignorância literária não me dá pistas de quem possa ser, mas, diferentemente de Marisa Raja Gabaglia, conto com o auxílio luxuoso e perigoso do Google e descubro que foi um importante escritor, jornalista, conferencista e tradutor, reconhecido como um dos mais importantes memorialistas em sua área no Brasil. Recebeu em 2001, pelo conjunto de sua obra, o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras. Diferentemente de Marisa, seu verbete na Wikipedia é longo e repleto de informações além das datas de nascimento em morte, traz até trechos - pequenos, sim - mas trechos, de sua obra e em nenhum local, menção sobre prováveis deslizes amorosos pessoais. Uma biografia de homem. Aproveito para dar uma "gugada" em Rubem Braga, pois acostumada a encontrá-lo nos prefácios, prólogos, apresentações ou orelhas dos livros de Marisa, suspeitei que talvez ele não estivesse mais entre nós quando da produção de "Os Nós". Minhas suspeitas cem por terra, Rubem, faleceria 5 anos depois da primeira e única edição desse livro. Seu nome na Wikipedia não é tão volumoso quanto o do Villaça mas consta uma lista das suas obras, biografia online de homem. A lista dos livros publicados de Marisa Raja Gabaglia, eu precisei colocar nessa biblioteca online tão consultada. Biografia de mulher.

