O comentarista esportivo, cronista do jornal Folha de S. Paulo e escritor Xico Sá lançou recentemente “Chabadabadá – aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha” (Editora Record, 184 páginas) – um livro que reúne crônicas, muitas delas publicadas em seu blog e em revistas, cujos temas principais são o comportamento e costumes do homem e da mulher contemporâneos.
O livro é bonito, no sentido físico mesmo. Tem um design diferente, assim como seu formato, que mais se parece com um mangá ou uma coletânea de histórias em quadrinhos. Inova também, no sentido gráfico, na disposição das crônicas nas páginas, já que, ao contrário dos padrões habituais de publicação, não inicia os textos em novas páginas. As crônicas, a maioria sendo bem curtas, estão dispostas uma atrás da outra, separadas apenas pelo título, em negrito e em uma fonte maior. As ilustrações de miolo e capa, feitas por Benicio, atraem e instigam a compra do leitor que se depara com o livro na prateleira da livraria.
Talvez acabe por aí os elogios que tenho a fazer do novo livro de Xico Sá, que, há muitos anos, vem traçando uma, como posso dizer, filosofia de boteco, levando pelo lado do humor os diferentes assuntos relacionados ao nosso tempo presente. Sempre muito raso em suas conclusões acerca do que muitos chamam de a comédia da vida privada, é bem certo que as crônicas esportivas de Xico Sá componham o seu material que contenha mais seriedade analítica. No programa esportivo Cartão Verde, da TV Cultura, contudo, ele perde de goleada como comentarista esportivo para o que sempre parece estar alcoolizado Sócrates e o apresentador do programa, o jornalista Vladir Lemos.
Mesmo com a sua fraca atuação como comentarista, é interessante ver um homem que se propõe a fazer literatura neste meio esportivo. Mulheres e estudantes de Letras, que jamais pensaram um dia em consumir programas de TVs que falem sobre o Campeonato Brasileiro, hoje provavelmente sabem um pouco mais da rotina dos clubes de futebol por causa de Xico Sá.
Parece ser gente boa
Com o passar dos anos, Xico Sá conquistou muitos fãs (a maioria são mulheres), pelo Brasil todo, tendo, inclusive, feito um vínculo de amizade forte com diversos escritores que hoje residem na Grande São Paulo, assim como ele. Ele parece ser boa gente. Dá-se a impressão de que é um ótimo parceiro para uma cerveja em algum bar perdido da cidade. Seu jeitão brega de ser acaba por não intimidar as pessoas, aproximando público leitor e escritor, o que nem sempre é comum acontecer, já que os homens das letras costumam ser bem reservados.
A verdade é que Xico Sá, com toda sua feiura já declarada e assumida, acaba por ser um sujeito midiático, televisivo. É engraçado vê-lo. É uma pessoa que não esconde jamais seu sotaque de nortista, tão pouco suas paixões, como a que tem por pés de mulheres. Um podólotra confesso. Aliás, na foto da orelha de “Chabadabadá”, Xico Sá aparece beijando um pé. Salvo engano, a imagem faz parte de um clipe do músico Otto.
Material não é inédito
Em mais um lançamento desse escritor, acredito não ser o único a ficar decepcionado. Infelizmente, com “Chabadabadá” – uma simples reunião de croniquetas facilmente encontradas em algum canto na internet – Xico Sá não agradou. No fundo, estamos há anos esperando um grande livro dele, sem sucesso. De todo modo, o escritor parece não estar muito interessado em apurar a ponta do lápis e, quem sabe, até ganhar algum daqueles prêmios literários mesquinhos oferecidos anualmente no Brasil. Por um lado, isso não deixa de ser uma atitude louvável. Pois, talvez estejamos mesmo querendo demais por parte de Xico Sá, um rapaz ainda, que gosta de beber na Augusta e de falar sobre futebol, mas que já está quase alcançando a casa dos 50.
Com o velho e já enjoativo portunhol que Xico Sá insiste em destoar em trechos de suas crônicas, “Chabadabadá” poderia ser facilmente considerado um autoajuda de luxo, com mais força literária, é claro, e respeitabilidade. Não se assuste ao se deparar, no livro, com um número excessivo de crônicas cujos títulos começam com as expressões “De...” e “Sobre...”, caracterizando os aspectos didáticos dos textos, algo como um manual para se viver na sociedade moderna, só que com pitadas de humor que jamais presenciaremos nos quadrados manuais.
Metrossexual x candango
Em suas crônicas, Xico Sá joga luz a um acontecimento da nossa sociedade moderna: a ausência de homens tradicionais, que amavam muito, que se contentavam com os milagres da Minancora na pele, por exemplo, que preferiam a Jurubeba ao champagne Rosê, que até em seu modo truculento de ser, ainda assim eram mais carinhosos com as mulheres do que os chamados metrosessuxais de hoje em dia.
Esses mesmos metrossexuais que possuem em suas penteadeiras mais cremes do que a mulherada, que ficam “se comendo” no espelho e que veem, cada vez mais, suas parceiras usando terninhos no trabalho, participando de conferências internacionais e, depois do expediente puxado, indo a bares com os amigos de trabalho para aliviar as tensões de mais um dia de cão.
Nesse ínterim, homens, ou melhor, para Xico Sá, os machos, estão perdidos e já não conseguem seguir o conselho do velho de Santana do Cariri, que procura alertar sempre seus filhos: “seje homi cabra! O resto, a gente resolve no correr das cabras”.
A disputa moderna entre o metrossexual a la David Beckham e o nordestino que não usa o mesmo sabonete nas partes de trás para não comprometer a macheza, é assunto preferido por Xico Sá em grande parte de suas crônicas. Caso houvesse uma briga entre esses dois tipos de macho, o escritor parece deixar bem claro, por meio de suas pitadas irônicas que atingem os garotões que usam Armani, que torceria para o candango nordestino, o que, embora seja engraçado de vez em quando, acaba por deixar suspenso no ar uma certa hipocrisia por parte do escritor.
Afinal de contas, será mesmo que Xico Sá é um bruto das cavernas? Ou pensou ter encontrado um assunto que renderia, pelo menos, certa polêmica nos dias de hoje e, consequentemente, audiência, conquista de leitores de internet e, como troféu, centenas de comentários no seu blog?
Para ler
Título: “Chabadabadá – aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha”
Editora: Record
Páginas: 184
Preço: R$ 37,90
Sábado ela dá
“Chabadabadá”, nome do livro, remete ao refrão da trilha sonora do filme “Um Homme ET une Femme”, de Claude Lolouch. Segundo Xico Sá, no Brasil, a expressão “chabadabadá” era cantada, em tom de brincadeira, como “sábado ela dá, sábado ela dá”.
Trecho da crônica "Da peleja do metrossexual contra o macho-jurubeba", do livro “Chabadabadá”
E da costela de David Beckham, Deus fez o metrossexual. Essa nova espécie composta por rapazes sensíveis, chegados a uma roupa Armani, que decoram a casa na linha minimalismo ultramoderno e têm uma bancada de potinhos de cremes superior a qualquer mademoiselle, qualquer rapariga endinheirada... Superior, no quesito produtos de estética e beleza, até mesmo à mais vaidosa das balzacas. Ou , como diz Michael Flocker, jornalista de Nova York que escreveu um guia sobre esses dândis do consumo, trata-se do homem do século XXI que estabelece tendências, homem heterossexual urbano com elevado senso estético, homem que ama um "bom vinho" (adora cheirar a rolha, sentir o bouquet etc), dedica tempo e dinheiro às compras; homem, enfim, disposto a assumir seu lado feminino no último. Como diria Costinha, gênio e comediante das antigas, com sua imoral bocarra: "Noooosssa!" Mas o certo é que passei essa resenha toda, sobre o novo tipo, para ao meu amigo Dioclécio, sertanejo brabo do Pajeú, com quem troco nem sempre agradáveis confidências acerca das viradas que o mundo deu e dará. Típico macho-jurubeba, aquele que não se rende às modernagens. (...) E é porque eu nem contei que o Beckham, boleiro símbolo da nova turma, declarou que usava as calcinhas da sua mulher. (...) Começa assim, salta o hiperbólico cinquentão -, depois, já sabe como é, tá matando e roubando para adquirir passagem de avião e desfilar na parada gay de São Paulo. O homem blasfema, resmunga, engata muxoxos, pantins, lamúrias quase incompreensíveis no seu linguajar que parece uma mistura de árabe com nordestinês: - Se o macho tá perdido, bote um anúncio no rádio, no programa do Vicelmo, lá no Crato, ou na ´Supermanhã´ do Geraldo Freire, lá no Recife - pragueja. - Ou vá procurar você mesmo, que eu mesmo só corro atrás de bicho fêmea.