In the midst of winter
Comecei o livro completamente apaixonado pela descoberta da escrita da Isabel Allende, sei que esse não é de longe o melhor trabalho dela, ainda sim acho visível as razões para ela ser tão aclamada. Existe algo de muito interessante na construção de humor e de personagens e a linguagem é super simples e então se mistura com algumas metáforas mais complexas que criam imagens e efeitos muito legais! Ansioso pra ler outros trabalhos. Dito isso, não gostei tanto assim da história. Acho que tem muita coisa bacana de se destacar: o contexto político-social e de denúncia, que imagino ser presente em todos os livros da autora, servindo como uma maneira de preservar a memória e impedir que esqueçamos. Todo mundo sabe que latino-americano tem memória curta. A ideia de tratar de um amor maduro também é muito legal, não sei se é culpa da minha escolha de leituras, mas muito raramente vejo algo falando do amor entre duas pessoas que já tem a vida formada, suas experiências e seguranças, jeito de ser e certezas, a exatidão do que querem e do que ainda são capazes de abrir mão. E sobretudo o fato de que a vida não acaba depois dos 30, ainda há excitação e planos e sonhos. E por fim, achei fantástico um amor e uma amizade que nascem no meio de uma tragédia, especialmente porque somos apresentados a personagens completamente marcadas por catástrofes, guerra e violência. Cada uma lidando com isso da própria maneira: com pragmatismo, silêncio e resignação ou amargura. E ainda sim, envoltos numa trama tão familiar, eles conseguem desenovelar afeto e cura. Por fim, eu acho que apesar de que todos esses elementos sejam muito positivos se avaliados individualmente — e a presença deles no livro me fez querer ler até o final — a sensação que tenho é que o contexto geral é muito morno. O mistério é meio óbvio, a crise moral é passageira e a resolução parece terrivelmente simplista. Não que isso torne o livro ruim, só um pouco meh.

