INSTINTO DE NACIONALIDADE.
Nesta obra Machado de Assis traz como discussão a literatura enquanto processo da construção da identidade nacional, além de mostrar seu conceito de crítica, também faz uma crítica aos valores indevidos ou abusivos da literatura de sua época. Instinto de nacionalidade foi publicado em 1873, com intenção de avaliar a produção literária da época. “Meu principal objeto é atestar o fato atual; ora, o fato é o instinto de que falei o geral desejo de criar uma literatura mais independente”. (ASSIS, Machado) O principal objetivo do século XIX foi à busca da nacionalidade, não era preocupação só com a política ou econômica, mas também intelectual e literária. Assim, a crítica queria a valorização de tudo o que fosse brasileiro. O que no Arcadismo valorizava a imitação dos modelos europeus, no Romantismo a ênfase era a criação de um modelo próprio, brasileiro, que fosse a expressão da cor local da nação então independente. O sentimento de nativismo continua justificando a brasilidade da literatura no Realismo. Machado trata as obras o Uruguai e o Caramuru de Basílio da Gama e Santa Rita Durão como as obras percussoras da literatura brasileira, e justifica que “A razão é que eles buscaram em roda de si os elementos de uma poesia nova, e deram os primeiros traços de nossa fisionomia literária”. Ao tratar das obras indianistas, o qual foi destacado como símbolo literário para se diferenciarem da literatura portuguesa, deste modo representar uma natureza brasileira centralizada na cultura popular, o folclore, os regionalismos. É por isso que a figura do índio foi tão valorizada, pois ele seria o verdadeiro homem brasileiro; depois dele, o sertanejo, o caboclo. Mas para Machado de Assis a civilização brasileira não estava ligada ao elemento indiano, desta forma ele destaca em seu texto: “É certo que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isto basta para não ir buscar entre as tribos vencidas os títulos da nossa personalidade literária”. Entretanto não pode excluí-la como patrimônio da literatura, assim explica M. de Assis: “Erro seria constituí-lo um exclusivo patrimônio da literatura brasileira; erro igual fora certamente a sua absoluta exclusão”. Assim como a poesia, o romance também se fundamenta nos costumes indígenas na busca de uma nacionalidade e de uma cor local, tendo como principal escritor José de Alencar, entretanto, para ser nacional, conforme Machado de Assis é preciso ser homem de seu tempo e deu seu país, além de possuir certo sentimento íntimo que nem todo escritor tem, pois “um poeta não é nacional só porque insere nos seus versos muitos nomes de flores ou aves do país, o que pode dar uma nacionalidade de vocabulário e nada mais. Aprecia-se a cor local, mas é preciso que a imaginação lhe dê os seus toques, e que estes sejam naturais, não de acarreto.” (ASSIS, Machado). Assim o autor cita os nomes de Álvares de Azevedo, Junqueira Feire e Casimiro de Abreu que mostram o entusiasmo desse movimento em busca da nacionalidade literária, mas que ainda precisam melhorar em certos aspectos. E como exemplo para os poetas que desejam chegar à grandeza da literatura tem como referências: Crespo, Serra, Trajano, Gentil-Homem de Almeida Braga, Castro Alves, Luiz Guimarães, Rozendo Moniz, Carlos Ferreira, Lucio Mendonça e outros, os quais servem de incentivo às vocações nascentes. Quanto ao teatro ele eleva os nomes de Martins Pena, Magalhães, Gonçalves Dias, Porto Alegre, Agrário, José de Alencar, Pinheiro Guimarães e Quintino Bocayuva, mas apesar dos esforços destes autores o teatro parece não frutificar como deveria. Quanto à língua ele observa a falta da pureza da linguagem e a excessiva influência da língua francesa. Conclui-se que as condições por que passava o país eram propícias para o salto da produção literária. Foi no Romantismo que o nativismo se transformou em nacionalismo consciente. A passagem da literatura romântica para a realista não foi em um sentido de reação, oposição, mas sim de transição, cuja tônica continuava sendo a busca da nacionalidade. À busca pela auto-expressão, à ânsia por ser um povo independente, autenticamente brasileiro, seguem-se os traços formais que caracterizam cada vez mais a nossa literatura, distinguindo-a da portuguesa. Em resumo, o autor destaca a importância de o crítico incorporar a obra, independente de seus sentimentos, aproximando-se assim de uma análise cada vez mais conscienciosa e imparcial, sem perder a sutileza ou mesmo ser superficial e mostrar que “há talento, e talentos bons. Falta unidade ao movimento, mas sobra confiança e brilho; e se as idéias trazem às vezes um cunho de vulgaridade uniforme, outras um aspecto de incoercível fantasia, revela-se, todavia esforço para fazer alguma coisa que não seja continuar literalmente o passado”. (ASSIS, Machado)



