Ego e Alma - O Ocidente Moderno em Busca de Sentido

    John Carroll

    Danúbio Editora
    2020
    269 páginas
    8h 58m
    ISBN-13: 9788567801254
    Português Brasileiro

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    Marcelo Gabriel Delfino01/04/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    “Houve uma procissão de Cristos humanistas no Ocidente. Hamlet foi o primeiro, o pioneiro. Stavroguin vem em segundo lugar, e incorpora a linhagem de Mefistófeles — do gênio satânico. Então, a seguir, para citar alguns dos principais exemplos, Kurtz, de Conrad; o mito de Che Guevara; e finalmente, logo no final do século XX, o Clube da Luta de Tyler Durden. (O Grande Gatsby), de Scott Fitzgerald, é uma variante — nele, o idealismo ingênuo substitui a violência). Cada um destes Cristos humanistas fracassa. Um por um, eles se metamorfoseiam inexoravelmente no anti-Cristo. Aqui está a metafísica fundamental do Enten-Eller. O carisma se torna demoníaco. Se a alma humana não consegue encontrar seu sentido, enlouquece e, em sua demência, perde autoridade sobre o ego. O ego desequilibrado fica possuído por uma mania de destruição — que, em última instância, significa a autodestruição. Freud denominou assim o ‘instinto de morte’.” (p. 261). Quem vê uma citação como essa, perspicaz e repleta de referências, o que lhe dá abrangência, julga que o livro é uma análise corajosa e interessante sobre a busca de sentido da humanidade, particularmente do Ocidente. Tendemos a desconsiderar os autores de quem discordamos, só porque suas ideias não nos agradam, isso faz com que os avaliemos mal. Não queria fazer isso aqui. Discordei bastante desse autor, me pareceu que ele não leva até o fim pensamentos importantes como o que foi expresso na citação acima, mas, a despeito disso, o livro é interessante e traz uma forma diferente de analisar a questão da perda de sentido da humanidade; senti que ele evita entrar em certos caminhos que poderiam levá-lo a ter que afirmar coisas das quais discorda. A mais importante delas é que o autor não pensa que a questão do sentido da vida tenha um fundo (ou seja inteiramente, talvez) religioso. Não são poucas as passagens em que ele reduz a importância da religião, de Deus e dos valores que o cristianismo criou e transmitiu. Já no fim do livro, diz que o Ocidente moderno tem três pilares, sendo dois deles inventados pelo mundo anglo-saxão, a democracia parlamentar e a economia capitalista. Ora, numa visão mais abrangente, essas duas criações podem ser consideradas negativamente, pois o capitalismo (vamos usar a linguagem marxista) reifica o homem e a democracia não passa do pior regime político na visão dos gregos antigos, onde a multidão seria guiada por seus apetites e facilmente manipulável. Durante toda a leitura, senti que o autor quer encontrar motivos para afirmar que nem tudo é tão ruim quanto parece. Assim, ele encontra traços de ascetismo calvinista no esporte, no trabalho, no turismo (aqui ele é bastante crítico), e em outras atividades humanas. Acho que nesse ponto, mesmo discordando bastante, vale a pena sua leitura da realidade. De fato, o esporte é um fenômeno que merece uma “análise positiva”, esquecendo um pouco os cacoetes marxistas sobre consumismo, fetichismo, etc. Mas, o autor não a realiza completamente, mais uma vez. Vale a leitura nesse ponto, no entanto, porque há muitos ramos de possíveis pesquisas que ficaram soltos e merecem ser mais bem elaborados. O argumento do autor é bastante conhecido, porque retoma Weber, com a ideia que o capitalismo é uma degeneração da ascese calvinista. Ou melhor, o capitalismo é um enraizamento não previsto da ascese calvinista. A ênfase no trabalho gera riqueza — ela é bem-vinda, porque significa que Deus abençoou aqueles que se dedicam a uma atividade honesta. Com o tempo, depois que vários exemplos são dados, o aspecto transcendente desse pensamento é abandonado e as pessoas buscam apenas a riqueza como consequência de suas atividades. O esporte seria uma espécie de retomada a meio caminho entre os valores do capitalismo e a ética religiosa. Nem se acredita na transcendência do trabalho, nem se pensa que aquela atividade não tem um significado maior do que aquele que aparece ali. E, sendo assim, é óbvio que, descartando a religião, o autor vai dizer que o esporte agrega, que estabelece laços entre as pessoas, que as faz se dedicar ao time como se fosse a coisa mais importante da vida, etc. Viktor Frankl, a grande referência quando pensamos em busca de sentido da vida, não pensou muito para dizer que esse sentido só poderia ser plenamente alcançado com a ideia de que tudo remete a Deus em alguma medida. Não se trata da volta do calvinismo, mas de dizer que há uma porção de coisas que só podem ser explicadas parcialmente e que, antes de isso significar desespero, deve-se entender que o sentido extrapola a vida material. Como explicar, no caso do próprio Frankl, que a responsabilidade de se dedicar a sua esposa e criar uma obra que pudesse ajudar milhões de pessoas em sua trajetória, não era mais do que o mero desejo de sobrevivência ao campo de concentração, mais do que o sentimento de autopreservação? Para ele, essas coisas tinham um valor muito maior do que o imediato, de conseguir dinheiro e sucesso. Havia — basta ler o relato de Frankl — um sentimento de obrigação com a história da humanidade. Isso não pode ser resumido a conseguir apenas dinheiro, que é importante para a sobrevivência, claro, mas ainda assim muito prosaico diante da enormidade da tarefa que ele se colocava e que deveria fazê-lo desistir, não ter mais forças para enfrentar o horror nazista. É por esse motivo que fiquei um pouco frustrado com a leitura. Esperava que o autor reconhecesse que o tema não pode ser tratado de forma tão limitada. A vida não é apenas material, caso contrário, não encontraríamos motivos para amar as pessoas, para nos dedicar a tarefas desagradáveis, a desafios infinitos e claramente desfavoráveis em suas chances de sucesso. Dizer que a humanidade não reconhece esse sentido, que as igrejas estão cada vez mais vazias e que a religião não tem mais poder algum de influência me parece precipitado, porque não é isso que estamos vendo. Até compreendo que boa parte da humanidade realmente se distanciou, mas isso não nos permite jogar a religião (em especial o catolicismo) para escanteio. Isso tem grande impacto em suas conclusões e acredito que o autor evitou enfrentar essa dificuldade, pois ela é uma variável difícil de incluir na explicação que ele dá. Mesmo a sua tese de que inconscientemente todos sabemos o que é verdadeiro e bom e procuramos encontrar essa ordem superior em nossas vidas através da cultura (ritos, mitos, etc), deixa transparecer que esse sentido só pode ser plenamente realizado transcendendo o plano de significados imediatos e restritivos da vida material; mas ele não parece interessado em mostrar o tamanho do vazio que todas as atividades que exercemos em nossas vidas tem como uma espécie de sombra atrás de si, uma sombra sempre pronta a jogar o entusiasmo que sentimos por essas atividades no lixo, pois elas nos frustram, em última instância. Apenas para esclarecer, o livro precisa de uma leitura atenta, levando em conta as cinco teses que servem como base para o autor. “Tese um – Inconscientemente, todos os humanos sabem o que é verdadeiro e bom e são internamente compelidos a encontrar o que sabem por meio de suas vidas e do que veem. Eles percebem que há alguma ordem superior moldando sua existência. O Ocidente continua a buscar as estruturas metafísicas desgastadas. ‘Tese dois – A cultura são os mitos, as histórias, as imagens, os ritmos e as conversas que expressam as verdades eternas e difíceis das quais dependem o conhecimento profundo e, por consequência, o bem-estar. ‘Tese três – As culturas são singulares. As leis morais fundamentais e os direitos humanos são universais. A crise de sentido do Ocidente moderno é uma questão cultural e não de cunho moral. ‘Tese quatro – Uma tripla lógica neo-calvinista transita pela modernidade: a consciência individual, a vocação mundana e a anima mundi. ‘Tese cinco – O progresso ocidental desenvolveu-se através do ego, algumas vezes às custas da alma, enquanto o Oriente tendeu a enfatizar a alma às custas do ego. O Ocidente foi fundado num equilíbrio entre ambos, conforme formulado na tragédia grega e revitalizado no protestantismo.” Essas teses devem ser lembradas durante toda a leitura, porque ajudam a compreender todo o andamento do livro. E foi justamente por isso que me decepcionei um pouco, porque o autor afirma que o livro tenta justificar a tese um. Mas acho que ela só pode ser plenamente aceita com a noção de transcendência. O fato de que as pessoas mudaram a forma de procurar não muda a “natureza” do que procuram. Se os olhos se tornam mais turvos, ainda assim, o sentido vai continuar lá, com sua transcendência esperando para ser encarada e vivida plenamente. Mas o autor é um sociólogo, mesmo que transite por várias áreas do conhecimento se limita a oferecer um quadro e tecer as explicações mais imediatas, históricas, dele. Há pouca especulação sobre os motivos que levaram a essas alterações. Mesmo assim, o livro merece ser ponderado.

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