Imagine a seguinte situação: um dia, algo terrível acontece com você! Sua vida é destruída de alguma forma por causa de uma pessoa. Você vai para a cadeia por causa dessa pessoa e ela fica impune. Livre enquanto você perde anos da sua vida atrás das grades por causa de um crime que não cometeu. Um dia, quando acaba de cumprir sua pena, um estranho cruza seu caminho e lhe oferece um presente: uma arma e 100 balas irrastreáveis, ou seja, a oportunidade de vingar-se tranqüilamente, já que não existe a possibilidade de ir preso. Você aceitaria a proposta ou não?
Essa é a premissa de 100 Balas, uma publicação do selo Vertigo (com quadrinhos para adultos) da DC Comics - lar do Superman e Batman - que chegou ao Brasil através da Opera Graphica, em outubro de 2001. A revista conta com os sinistros roteiros de Brian Azzarello e a competente arte de Eduardo Risso. As capas são do artista Dave Johnson.
A publicação não possui um personagem principal. A revista prossegue através de arcos de histórias que nos apresentam a vida (ou o que sobrou dela) de alguns personagens. O primeiro arco, que prossegue pelos três primeiros números da publicação, conta a história de Dizzy, uma presidiária em liberdade condicional que descobre que o marido e o filho foram mortos por policiais. Então, ela tem acesso a uma pasta com uma arma e 100 balas que não podem ser rastreadas. Elas se vingará dos homens que mataram sua família ou não?
Neste texto, já citei o tal "presente" (uma arma e cem balas) duas vezes. Ele é entregue numa maleta pelo único personagens que é presença garantida em todas as edições e liga todas os arcos de alguma forma que demora a fazer sentido: um homem que apresenta-se como Agente Graves. Você confiaria num cara com esse nome?
O tal Graves pousa como um "Mefisto moderno" que dá a oportunidade de um controle sobre a vida e a morte para os personagens centrais. O que estes farão com essa oportunidade é o grande propulsor das aventuras. É certo matar pessoas só porque você pode fazer isso sem ser pego? Mas é justo uma pessoa destruir sua vida e sair ilesa?
É uma questão complicada que faz o leitor mais desalmado refletir. Os enredos são inteligentes e mostram um submundo real: tráficos de drogas, linguagem coloquial, enfim, uma linguagem mais natural do que um "Cidade de Deus", por exemplo. E a arte é limpa caindo como uma luva para o clima "noir" das histórias.
É irônico (ou deveria dizer triste?) perceber que a violência representada do submundo dos EUA lembra bastante a violência do cotidiano das grandes cidades brasileiras. Há preconceito contra negros e estrangeiros. Enfim, 100 Balas é uma revista adulta, sem dúvida, que mostra (ou tenta competentemente) nos levar a um mundo mais real que está aí a nossa volta, batendo as nossas portas, mas que fazem parte do dia-a-dia de muitas pessoas. 100 Balas retrata um mundo violento sem suavizar suas cores.