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    Pesquisa qualitativa e psicodrama -

    André Maurício Monteiro, Devanir Merengué, Valéria Brito

    Ágora
    2006
    136 páginas
    4h 32m
    ISBN-10: 8571830266
    Português Brasileiro
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    Escrita por psicólogos e psicodramatistas ligados à produção do conhecimento dentro e fora da universidade, esta obra - original e inovadora - explica como fazer pesquisa utilizando a dramatização e as técnicas de ação. Destinado a psicodramatistas, universitários, acadêmicos e pesquisadores das áreas de ciências humanas e saúde, o livro aborda as relações entre epistemologia qualitativa e psicodrama, evidencia como este se liga à investigação científica e traz uma proposta de sequenciação psicodramática. Ao final, há o registro de um diálogo livre entre os autores sobre temas como ética, tragédia e catarse e a função da arte e da ciência que estimula o leitor a refletir sobre esses assuntos e a ir mais longe.

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    Tiago M. Peixoto picture
    Tiago M. Peixoto19/02/2023Resenhou um livro
    3 (Bom)

    É um texto disparador!

    O livro é composto de quatro capítulos escritos por Valéria Brito, Devanir Merengué e André Monteiro e, por último, um diálogo entre os três. Coloquei OBS que são apenas pensamentos meus diante do texto que escolhi colocar em parênteses para não confundir com a argumentação dos autores. Inicia com Valéria Brito. Esta menciona a distinção do psicodrama diante do positivismo que dominou o cenário das ciências no século XX, salientando o papel determinante que o psicodrama/sociometria afirmou haver por parte do pesquisador e a subjetividade envolvida na produção científica. Para uso do psicodrama na pesquisa pontua que tanto os conceitos basais quanto as técnicas podem ser caminho. Valéria insere o psicodrama na tradição de pesquisa qualitativa que permitiria entrar no debate científico sem abrir mão da avaliação da subjetividade; endossa que o método mais adequado é o que atende melhor às características do "objeto" (como é sabido, nós seres humanos temos nossas qualidades que distinguem-nos intensamente!). Lembra a adesão parcial de Moreno à ciência do seu tempo e a posição da obra deste como um saber ponte ente a tradição europeia e norte-americana. Valéria também lembra que o conhecimento que advém do psicodrama atende a situações específicas e pouco acrescenta às metanarrativas que pretendem definir o ser humano (OBS: sabe aquelas teorias que explicam quase tudo?). Como é avesso a ideia de previsibilidade e controle, é difícil sustentar o status científico do psicodrama diante do paradigma positivista ou neo-positivista. (OBS: Desta forma, pedaços da teoria foram deslocados para melhor adaptação, sociometria virou análise quantitativa de dados e distante da avaliação subjetiva e do objetivo de promover mudanças nos pequenos grupos; o conceito acessório de matriz de identidade para os brasileiros tornou-se uma teoria de personalidade que aproxima das correntes estruturalistas; e assim por diante). Depois, Merengué inicia pontuando, o que não é desnecessário reforçar, que o psicodrama nasce de uma contestação da psicanálise freudiana, às convenções do teatro tradicional e assenta-se numa concepção religiosa de mundo e homem. Necessariamente mantém-se numa posição marginal entre uma ciência e uma forma de arte. Fala sobre o psicodrama ser utilizado como "técnica" (OBS: comumente o não-sabido supõe que fazer um cena ou teatralizar uma situação é psicodrama) e do desconhecimento de estudos de epistemologia que se debruçem sobre o conhecimento que é gerado pela dramatização (OBS: isto é uma questão de pesquisa bem curiosa, porque a dramatização não é "representação pura", se que isto existe, mas envolve "criação" e "descoberta", o que transcende o objetivo de fruição estética que associamos à dramatização vivenciada no teatro, por exemplo). Merengué associa o psicodrama a um trabalho de imersão e compreensão; na pesquisa pressupõe uma escrita encarnada e não burocrática; como o objeto da pesquisa no psicodrama são as relações, a pesquisa pode transitar pelas relações objetivas e imaginárias. Ele também retorna aos conceitos clássicos de papel, tele e transferência, espontaneidade criadora e conserva cultural, co-inconsciente, protagonista e sociometria. Os resultados são fruto de uma "construção coletiva" que vem no sentido de "produzir novas discussões e gerar novos sentidos" (p. 82); ajuda a rever às metanarrativas e não constitui-se o psicodrama em uma (endossa Valéria), resultado num conhecimento que pode servir à várias finalidades. Mais adiante, André Maurício pontua o que se ganha e o que se perde ao tentar incluir o psicodrama no mundo acadêmico; pontua a característica do psicodrama como técnica, método e metodologia; fala do desafio do psicodramatista conseguir explicar o que faz e como faz de uma forma tangível ao não especialista. É o capítulo que mais atém-se a questão de organização do psicodrama para a pesquisa: fala do uso de observação sistemática (do grupo e juízes), técnicas sequências e propõe uma "segmentação cênica" que pensa poder auxiliar na compreensão do todo da produção: a) transição do aquecimento; b) montagem da cena; c) investigação emocional dos personagens; d) dinâmica da cena; e) intensificação do conflito: manifestações catárticas; f) catarse de integração: ressignificação (OBS: aqui ele entende a catarse de integração com um processo que se dá no indivíduo, outros autores entenderão que a catarse de integração é um evento grupal) e g) retorno à cena inicial, se houver e ao contexto grupal; encerramento (antes do compartilhamento). Pelo destaque, André parece considerar a análise narrativa (originada da antropologia = analise sintagmática e paradigmática); a análise dialógica (ex: Bakhtin) como formas de elaboração do material mais coerentes com o que foi feito e com sua especificidade. Por último, a consideração da interdiscursividade (avaliar o discurso a partir da sua relação com outros) (OBS: A afiliação ao método fenomenológico é endossada, embora eu mesmo tenha dúvidas sobre isto. Do ponto de vista epistemológico creio haver maior proximidade com o pensamento complexo, encontramos na obra de Moreno o mesmo referindo a Husserl como "existencialista" (?). Desta forma, só pode reivindicar-se uma aproximação epistemológica e não uma afiliação à escola fenomenológica como ocorrem com outros pensadores, mais diretamente, e mesmo com abordagens psicoterápicas como Gestalt-Terapia e Abordagem Centrada na Pessoa, tangencialmente visto a fenomenologia tratar-se de uma teoria do conhecimento e não um método de psicoterapia). No diálogo dos três, ao final, ideias importantes como: transpor o modelo psicodinâmico para um modelo de construção (ao que não está pronto); assumir a ideia de co-criação que rompe com a "autoria" única do trabalho de pesquisa; assumir que pesquisa no contexto de grupo visa beneficiar o próprio em primeiro lugar; sobre a tendência de dar foco ao trabalho do diretor em contraposição ao que é feito pelos outros participantes; sobre a pobreza da transcrição escrita das sessões de psicodrama (visto sua riqueza estar na vivência); assumir a dimensão trágica da existência humana (influência do teatro grego) relaciona-se com a poética, mas distancia da ciência positivista, pois acolhe a imprevisibilidade e o contraditório como parte do processo e, por último, que o psicodrama pode se prestar a vários projetos distintos (entre outras várias observações). Como disse no título, este livro é um texto disparador e foi produzido em 2006. Novas produções sobre epistemologia e filosofia do psicodrama surgiram deste então e podem corroborar ou contrapor-se ao que os autores trouxeram. Necessário entender que não é um assunto esgotado. .

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