Bem escrito, mas se alonga e se repete além do necessário
Uma das melhores leituras que fiz no ano passado foi o surpreendente "La Maison", da escritora francesa Emma Becker, uma obra que considero, possivelmente, o melhor romance sobre prostituição escrito no século 21. Como consequência, fiquei interessado em conhecer outras obras da autora e, dentre todas, a que mais me interessou foi este romance de estreia, "Monsieur", lançado em 2011. Infelizmente, não foi publicado no Brasil, mas consegui encontrar uma cópia em inglês (embora eu tenha uma noção básica de francês, não é o suficiente para me dar coragem de encarar um livro inteiro). Trata-se de uma autoficção narrada por um alter-ego da autora, Ellie, uma estudante parisiense de 20 anos que embarca, durante 10 meses, em um relacionamento com um cirurgião plástico de 46 anos, casado e pai de 5 (!) filhos, cujo nome não é revelado - Ellie refere-se a ele apenas como "Monsieur". Atraídos por um interesse em comum por literatura erótica (refiro-me aos clássicos: Sade, Bataille, Louis Aragon), a relação entre os dois logo migra de conversas provocantes no Facebook para encontros semanais em quartos de hotel. Embora o teor da obra por vezes perigosamente se aproxime de coisas como "50 Tons", na maior parte do tempo o talento de Emma Becker se impõe. Sim, há bastantes passagens cruas/picantes, mas é possível ver a pretensão literária da autora se sobressaindo. Há diversas passagens interessantes, como as descrições de um verão em que a protagonista flerta com sentimentos bissexuais em relação a uma amiga, ou quando Ellie tece toda uma conversa imaginária de Monsieur a sua esposa, a respeito de sua infidelidade. E, no geral, as passagens de s3xo são muito boas. O pecado da obra é se alongar demais (são mais de 360 páginas) sem sair muito do lugar: quase um terço do livro é apenas um jogo de gato e rato, com Ellie reclamando que seu amante nunca tem tempo para ela, e Monsieur se justificando com evasivas.
