Discurso de Tóquio - Revista BORDA lacaniana

    não informado

    BORDA
    2020
    16 páginas
    32m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Recentemente, em um evento promovido também pela Borda, falei muito brevemente sobre o problema da tradução em Lacan. Ao invés de focar nos problemas mais usuais, pontuei a importância de um projeto rigoroso de tradução para uma transmissão de fato democrática da psicanálise. Contrapondo a desfaçatez da afirmação tácita “para ler Lacan tem que saber francês” à possibilidade de pensar o campo analítico para além de seus feudos de nobreza, propomos então o projeto “Borda Traduções” como uma frente importantíssima de nossa aposta de transmissão. Aqui, trata-se fundamentalmente de uma convocatória: o texto está aí. Leiam e pensem sobre ele. Debatam. Inclusive: debatam com a gente. Não pretendemos ser exegetas, mas pesquisadores e fomentadores de mais pesquisa. É por isso que o projeto de tradução, que dá seu primeiro passo hoje, nos é tão caro: possibilita um maior acesso e uma maior democratização dos textos lacanianos. Para além do problema político – que vai muito além simplesmente das questões elucidadas acima –, o problema teórico também se faz sentir em todas as traduções. Lacan, como já escutamos algumas vezes, não é um autor muito simples de se traduzir... O uso deliberado e consciente de homonímias, equívocos e duplos sentidos abundam no discurso lacaniano. A tradução integral e sem perdas do original para uma outra língua é impossível. Ingrata por sua impossibilidade inerente, contudo, a tarefa da tradução – ainda que seja sempre uma traição – não pode cair no engano de simplesmente procurar apagar o fato simples de que, como tradução, é também uma interpretação do texto. Abandonada a miragem da tradução integral, muitas vezes a tarefa de tradução se torna um apagamento da operação de conversão e a busca de um efeito mítico do “é isso que Lacan disse”. Ora, o que Lacan disse, até na língua francesa, é campo de debate. Uma tradução, portanto, deve se assumir como tradução e, com isso, mostrar suas escolhas e suas apostas. Chamei isso de “honestidade intelectual” na tradução. Isso não quer dizer, contudo, que a “interpretação de cada um” governe o campo das traduções. De modo algum. Em muitíssimos momentos Lacan é enfático e absolutamente inequívoco – não à toa algumas frases suas foram simplesmente retiradas... Parte da “honestidade intelectual” consiste em não se esquivar dos momentos em que Lacan afirma algo que se choca com uma interpretação particular – seja para salvá-lo ou condená-lo. Rigoroso como o sistema lacaniano é, o tradutor deve estar advertido de suas modulações e complexidades para propor uma tradução à altura do sistema que pretende traduzir. Sua “interpretação singular” perde espaço para o edifício construído ao longo de mais de 30 anos de ensino sistemático. Dessa forma, o trabalho de tradução dos textos lacanianos é ingrato por duas razões: por um lado, devemos aceitar os equívocos (especialmente na relação entre escrita e fala) que Lacan mesmo sempre abordou de maneira orgânica no seu discurso e assumirmos as nossas escolhas de tradução e de interpretação; por outro lado, devemos estar advertidos que nossa interpretação não pode se sustentar em sua singularidade particular, mas rigorosamente no sistema lacaniano, que possui uma coerência tão alta quanto sua complexidade e aparente ininteligibilidade. Entre a cruz e a espada, apostamos ainda assim na importância de propormos as nossas traduções para que elas possam ser lidas, discutidas e questionadas. A tradução deste texto foi feita por mim, Ramiro Faria, e por Camila Kushnir, mas sobretudo pelo grupo Borda em geral, que leu atentamente junto cada linha do texto e debateu as escolhas de tradução. Cabe também ao que chamei de “honestidade intelectual” se apresentar e estar disposto a dialogar. Qualquer dúvida sobre o projeto ou sobre o texto que segue, entrem em contato. Responderemos o quanto antes.

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