Sociologia. Psicanálise. Análise Cultural. Psiquê do Homem Moderno. Religião. Marxismo.
Livros acadêmicos tem uma vantagem por conseguir explicar detalhes de algum assunto específico. Os livros comerciais podem ser mais fáceis de ler e fascinar com frases de efeito. Não que eu seja contra frases de efeito, mas perdemos muito ao receber um assunto mastigado. É justamente no “digesto” de um assunto, que o conhecimento se solidifica dentro do coração. Esse é o caso do livro de Philip Rieff, que se propôs a anunciar, profeticamente, o aparecimento de uma figura que não temos a coragem de olhar, por medo de se identificar: O homo psicológicos, o homem terapêutico.
Rieff, Sociólogo e Crítico cultural Freudiano, tenta demonstrar como Freud e seus discípulos moldaram uma cultura totalmente dependente de si mesma, de seus próprios impulsos e que seu maior objetivo é “ser agradada”. O que assusta é como um livro de 1966 consegue demonstrar exatamente os passos da nossa sociedade rumo a sua destruição. Seus paralelos com a religião impressionam pela lucidez e clareza de relacionar uma sociedade que trocou Deus por liberdade, a Igreja por um partido, a adoração por uma práxis social e sexual revolucionária, o padre/pastor pelo terapeuta e a benção por satisfação consumista.
Crítico ferrenho dos seguidores de Freud, Rieff denúncia como todos eles, de Jung com sua psicanálise espiritualista “mística”, ou o marxismo religioso de Alfred Adler e Wilhelm Reich, ou o papel estético-pornográfico-transcendente de D.H. Lawrence como formadores de uma sociedade hiper compulsiva e disposta apenas a receber. É como se o Ubermensch de Nietzsche fosse agora o padrão das pessoas de nossa sociedade; e é ela própria que se desmorona.
O autor critica a religião achando que ela está fadada a desaparecer, o que não é nenhuma novidade para qualquer seguidor da escola de Durkheim. Porém apesar disso, Rieff reconhece o mérito da religião cristã de unir sob Deus, a totalidade da vida que nenhuma outra doutrina, inclusive de Freud, conseguiu unir. Ao final, recomenda que uma boa forma de lidar com o homem terapêutico é associá-lo em comunidade. Individualismo se combate com alteridade. Para um cristão, o livro contém pequenos sofismas sobre a fé, mas nada que comprometa o resultado final.
Altamente recomendado para discussões acadêmicas sobre teologia pública, psicologia, teorias da justiça (principalmente autores comunitaristas), psicanálise e análise cultural. É um livro denso que não se lê rapidamente. Dá vontade desistir várias vezes, não porque o livro é ruim, mas por descobrir como estamos imersos em uma cultura individualista sem nos darmos conta disso.