Batendo o nariz no muro do tempo
Ernst Jünger é muito interessante como ensaísta (escrevia ensaios em aforismos longos, como Nietzsche), mas muito difícil de entender. Se em “Der Arbeiter” (que eu li como “L’Operaio”) é compreensível o seu otimismo com a Forma (tipo metafísico) do trabalhador, como via de superação das aporias do mundo burguês e liberal, otimismo esse compartilhado por tantos outros naqueles anos de Segunda Revolução Industrial, a sua confiança no desenvolvimento posterior do potencial emancipador da tecnocracia global soa temerária e alucinada. Jünger é um aristocrata do espírito (no sentido evoliano) e seu horizonte moral não vai muito além do velho vitalismo nietzscheano. A figura do trabalhador é uma atualização possível do tipo nobre do herói. Dele herda o espírito de sacrifício, a pulsão de domínio, o inconformismo com a vida entesourada nos próprios interesses, as noções de ordem, dever e honra. No Trabalhador, a democracia burguesa é superada em formas de liberdade coletivizada, o contrato social é substituído pelo planejamento do Estado Operário. O mundo político e econômico vive como que “em pé de guerra”, em estado de permanente engajamento. A sociedade funciona como uma oficina, um canteiro de obras, em mobilização total. Um estado transitório, de passagem para novas e ainda não imaginadas formas de reconstrução do homem. Confesso não haver entendido a empolgação de Jünger em “An der Zeitmauer” (que eu li como “Le Mur Du Temps”), obra de 1959. O autor parece ter que remeter a processos mais amplos (à longa duração do tempo, ao desenvolvimento da Vida na Terra) para ainda ser possível enxergar o afunilamento da história humana em direção à tecnocracia global como algo além da morte da liberdade e do advento do Último Homem. Do que eu consegui apreender, Jünger se presta a produzir quase um discurso legitimador da (obviamente minoritária) elite tecnocrática que “representará” a liberdade do homem futuro (o homem do lado de lá do Muro da História), o Übermensch a quem sobrará a liberdade possível na nova ordem: a liberdade de optar por ser vetor natural de transformação da Terra; a liberdade de se tornar o ser humano em Titã; a liberdade de assumir o homem seu papel de terraformação, de força natural mais poderosa da Terra.

