Levando em conta as possibilidades tantas que permitem um diálogo interdisciplinar do direito com a psicanálise, a obra aposta justamente nessa proposta, resultando assim numa abordagem ampla sobre temáticas diversas que podem ser analisadas pela ótica dessas duas áreas do saber. Em que pese suas diferenças - que também são tantas -, a análise conjunta do direito com a psicanálise sob um mesmo enfoque é permitida, dentre ainda tantas razões possíveis de serem apontadas, ao considerar que, como bem se aponta em um das capítulos da obra, possuem um mesmo objeto, a saber, as humanidades. Assim, cada qual ao seu modo, direito e psicanálise são conduzidos aqui numa abordagem conjunta de complementariedade, possibilitando que algumas questões inseridas nesse objeto - humanidades - sejam melhor compreendidas.
Dividido em quatro partes, o livro aborda essa relação por diferentes vieses. Na primeira parte estão reunidos trabalhos que levam em conta o subtítulo da obra - controvérsias contemporâneas -, de modo que a relação entre direito e psicanálise é analisada tanto em sua epistemologia como também em questões práticas como na questão da reincidência penal e na ideia de corrupção. Na segunda parte os capítulos dialogam sobre a questão da responsabilidade, abordando e distinguindo aquela que seria a jurídica daquela subjetiva. A terceira parte é composta por trabalhos que abordam a relação interdisciplinar proposta com enfoque na ideia de justiça restaurativa, apontando-se para pontos de enlace nesse sentido. Por fim, a última parte conta com textos sobre a polêmica da redução da maioria penal, expondo questões jurídicas e psicanalíticas que auxiliam na melhor compreensão do tema.
Como muito bem se aponta na apresentação da obra, com relação a intersecção entre direito e psicanálise, tem-se que "a intervenção de um sobre a outra e vice-versa desenhou uma relação histórica fértil, permitindo ampliar o espectro de cada disciplina no rico debate entre inconsciente e lei, indivíduo e sociedade, subjetividade e política, rompendo com a falsa binaridade desses termos, cuja relação de indeterminação implica em uma lógica, antes de interface, que de oposição". É ao considerar justamente essa rica relação que a obra contribui para a ampliação desse debate salutar, tendo-se aqui uma excelente abordagem de direito e psicanálise.