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    As Duas Sombras do Rio -

    Paulo Coelho, João Paulo Borges Coelho

    Impresa Publishing
    2010
    238 páginas
    7h 56m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    4.2
    5 avaliações
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    Esta é uma história feita de histórias entretecidas. Histórias de guerra e de sobrevivência, de pequenos sinais de humanidade rompendo da violência como as plantas rompem das pedras. É também uma história de divisões: divisões entre a memória e o presente, entre os deuses e os homens, entre os homens eles próprios. Divisões que crescem no espaço da grande divisão que o majestoso rio Zambeze cavou, separando o mundo da cobra feminina, milenar e sábia, e o mundo do leão masculino, jovem e fogoso erigindo uma fronteira entre o Norte e o Sul. Esta história feita de histórias mostra que talvez os homens encontrem na ilha de Cacessemo, a meio do rio, uma ponte de união entre o mundo da água e o mundo do fogo.

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    Wesley Lima Santos picture
    Wesley Lima Santos25/11/2010Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A literatura desconhecida da Africa

    A obra “As Duas Sombras do Rio”, de João Paulo Borges Coelho, é uma das mais conceituadas da Literatura Africana. A começar pelo escritor, que é grande pesquisador das guerras que acontecem no país que, segundo ele próprio (aprofundar mais a biografia). A narrativa é fragmentada, porém compõe um todo indissolúvel que forma o contexto múltiplo e dividido da civilização de Moçambique e regiões próximas. À la Almeida Garret, em seu “Viagens a Minha Terra”, há vários cortes narrativos para que a história da região seja melhor refletida e criticada pelo narrador, com a diferença de que Garret separa isso por capítulos, enquanto o narrador de As Duas Sombras do Rio é um observador que melancolicamente relembra da história de seu território conforme lhe são dados objetos ou fenômenos que o remetam a tal nostalgia (a comparação é cabível aqui apenas em relação à técnica narrativa, pois os contextos das obras não tem nada em comum). A explanação dos personagens também é bastante ampla e ao mesmo tempo fragmentada, pois a vida é narrada e interrompida para que seja narrado sobre outras vidas e, pouco depois, há regresso ao que foi interrompido, só que num momento futuro. É o que acontece com o personagem inicial, Ntsato Leônidas, que aparece nos primeiros capítulos para desaparecer pouco depois, “louco”, e ser procurado, assim retornando à narrativa, num momento mais adiantado da história, pelo seu filho mais velho, Jonas, que desde muito jovem já demonstrava entusiasmo e força singular. No intermédio entre um ponto e outro, entre a história de um grupo ou família e outro, observamos sempre a visão de cidadãos comuns perante a brutalidade da guerra que é tida como um “m’fiti”, uma espécie de maldição que perdura por tempo o bastante para dissipar e mudar drasticamente o modo de vida de ambientes que, apesar de humildes, eram lugares de predominância da paz entre seus residentes. Tal m’fit foi previsto no principio da obra por Ntsato, quando ele, representante da voz da tradição e do povo moçambicano, após descobrir estar amaldiçoado por “espíritos maus” representados pela cobra e o leão que, por sua vez, representam o feminino e o masculino, o pacifico e astuto contra o forte e impulsivo, decide que sua “cura” viria a partir do momento em que fosse ouvido pelo administrador Sigaúke, representante do cientifico e do racional, ou seja, da cultura predominantemente européia. A questão é que Ntsato não é escutado. Nem mesmo quando propõe uma espécie de acordo: se submeter a trabalhos em troca de um salário do administrador. Tal negação por parte do administrador tem o valor simbólico da negação de aceitabilidade de culturas pseudo-superioras, no caso a cultura cientificista européia, frente a culturas diferentes mais ligadas a tradição. Porém apesar do desdém e da recusa de dar-se ouvido ao popular, predomina o cultural quando Ntsato lança a praga sobre a administração e eclode a guerra, que nada mais é que a m’fiti que acabou com os papeis e registros do prédio da administração, assim como acabou também com a cidade em que vivia Ntsato, única testemunha, por não ter fugido durante a invasão, do terror das explosões e das chamas. Vale ressaltar que Ntsato não representa apenas a negação do que vem de fora, pois ele além de consultar o nganga Gomanhundo (curandeiro do local), havia freqüentado hospitais a fim de tratar seus problemas físicos e psicológicos, porém nada havia resolvido, assim como nada resolveu o “destino” de não ser ouvido pelo administrador e de nada poder fazer em relação à guerra que se iniciava. Após o “amanhã” de m’fiti, no dia 16 de outubro de 1985, citado por Ntsato, o enfoque da obra muda e sai da vida comum e da descrição do ambiente quase que “surrealisado” pelo olhar do pertubado pescador, e vai girar em torno da invasão do Zumbo por um grupo não identificado, que acaba dando início a uma desesperada fuga pelo rio Zambeze, perigoso ninho de crocodilos, onde parte da população encontrará a morte. A linguagem enquanto é tratado o tema da travessia do rio, é bastante poética, o que nos dá com mais clareza a sensação de nostalgia e melancolia do narrador. Muitos morrem durante a travessia. Muitos morrem sem sequer ter tempo para chegarem ao rio. Mas o enredo prossegue tratando de mais um tema importante: o comércio ilegal, a partir do surgimento da personagem Mama Mère e o comércio de marfim. A comerciante tem uma relação de interesse com o comandante Million, que, apesar de ser policial estava fortemente envolvido com o negócio do marfim, até ser ludibriado pela mulher e acabar sendo caçado e repreendido pelo fiscal tenente Maxwell Zvobo. Mama Mère consegue ter comércio sólido com o outro lado do rio, importando marfim e exportando coisas em geral, e apesar da aparente frieza, recebe bem os “refugiados” do outro lado do rio, além de ser também bastante poética e nostálgica quando, introspectivamente, reflete sobre o tempo, a vida e a desesperança noturna que se torna em esperança sonâmbula quando chega a aurora e o belo evento do nascer do sol. Do lado do Zumbo, temos a concorrente de Mama Mère, Dona Flora, que teve a loja e o trator destruídos pelos invasores. O que não intimidou os traficantes Suzé Mantia e seu amigo, que fugiram com o marfim que deveriam entregar para Mama o quão antes. Porém havia guerra e “a entrega teria que esperar”, pois em fuga sorrateira pelas montanhas, com apoio do comissário meia-chuva, militar que não se dava muito bem em território aquático, mas havia crescido em meio à guerras inúmeras (sugestivamente, isso nos diz que desde sempre houveram guerras por aquelas regiões), os traficantes seguem vendo os defensores de Zumbo sendo mortos, mas jamais reagindo ou tentando de algum modo aparecer aos olhos dos invasores. No trajeto de fuga, eles encontram “pedras mágicas” e ai ocorre um corte narrativo de cunho histórico em que é dissertado a respeito da igreja, dos padres, da hipocrisia, imposição e injustiças que os religiosos faziam em sua “casa de Deus” que agora nada mais era que um punhado de ruínas, de “pedras mágicas” de Deus, que serviram para aguçar as recordações enquanto a guerra eclodia com mais violência, e nada mais. Após o “corte”, os personagens prosseguem rumo ao seu destino e, apesar de tudo que vivenciam, não deixam de se preocupar com o trabalho que devem fazer o que demonstra haver duas lutas: a luta pela vida dos que fogem da invasão, da guerra; e a luta pelo dinheiro, que até em casos extremos é lembrado, no comércio ilegal entre as duas margens do rio. O enfoque da obra muda algumas vezes mais, sempre girando em torno do caso da guerra e das rivalidades que daí decorrem. É o que acontece quando se abre a narração de outras duas invasões, uma sem previsão no Bawa e outra em M’phondor, porém todas sempre fronteiradas pelo rio, fato este que não significa que haja guerra apenas nessas duas regiões, mas sim em vários pontos do mapa, ambos fronteirados não necessariamente por margens de rios, mas sim por povos iguais que por várias questões, principalmente comerciais e políticas, vivem em constante embate. E é nesse embate que morre Mama Mère, assassinada principalmente por causa de sua ambição, que não era traço único de sua personalidade, mas que era o mais marcante em função da influencia e necessidade que se fazia no meio em que ela vivia. Concluindo, a questão histórica é crucial na obra, e muito bem tratada pelo escritor que é profundo pesquisador dos problemas que assolam tal região. Porém a linguagem poética permeia toda a narrativa até o final, onde Ntsato, como já dito representante do sentimento africano, encontra suas “respostas” ao observar um grupo de refugiados que ao atravessarem o rio (isso ocorre no terceiro ataque), encalham na ilha que fica entre bem ao centro dos dois lados. O equilíbrio seria a resposta; não ser “refugiado”, nem ser “conquistador” de povos que são, inevitavelmente, irmão; nem ser totalmente obcecado pelo material, nem apenas pelo espiritual, enfim, como em quase todas as coisas na vida, o equilíbrio se faz necessário para que não haja o caos. Ntsato percebe isso muito bem e reflete fortemente a respeito da imagem que ele vê (as imagens sempre foram o que fizeram com que ele refletisse e tirasse conclusões fortes, assim como ocorre com o narrador e suas aspas para tratar da “memória” histórica”), a imagem dos homens ilhados, e conclui que para ele, a única maneira de se libertar e encontrar o equilíbrio, seria fundir-se ao rio. Assim, ocorre o suicídio como libertação e afirmação do misticismo que mistura o natural com o espiritual (lembremos do caso do canavial no inicio da obra). - W.L.S. -

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    Paulo Coelho

    nasceu em 1947, na cidade do Rio de Janeiro. Antes de dedicar-se inteiramente à literatura, trabalhou como diretor e ator de teatro, compositor e jornalista. Paulo Coelho escreveu letras de música para alguns dos nomes mais famosos da música brasileira, como Elis Regina e Rita Lee. Seu trabalho mais conhecido, porém, foram as parcerias musicais com Raul Seixas, que resultou em sucessos como Eu nasci há dez mil anos atrás, Gita, Al Capone, entre outras 60 composições com o grande mito do rock no Brasil. Em 1986, PAULO COELHO fez a peregrinação pelo Caminho de Santiago, cuja experiência seria descrita em O Diário de um Mago. No ano seguinte (1988), publicou O Alquimista, que - apesar de sua lenta vendagem inicial, o que provocou a desistência do seu primeiro editor - se transformaria no livro brasileiro mais vendido em todos os tempos. Outros títulos incluem Brida (1990), As Valkírias (1992), Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei (1994), a coletânea das melhores colunas publicadas na Folha de São Paulo, Maktub (1994), uma compilação de textos seus em Frases (1995), O Monte Cinco (1996), O Manual do Guerreiro da Luz (1997), Veronika decide morrer (1998), O demônio e a Srta. Prym (2000), a coletânea de contos tradicionais em Histórias para pais, filhos e netos (2001), Onze Minutos (2003), O Zahir (2005), A Bruxa de Portobello (2006), O Vencedor está só (2008) e a compilação de textos Ser como o rio que flui (2006). Fez também a adaptação de O dom supremo (Henry Drummond) e Cartas de Amor de um Profeta (Khalil Gibran).

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    Rio de Janeiro, Brasil

    Paulo Coelho