pianista mundialmente renomado, ryder chega a uma cidade europeia -- talvez na europa central, às vezes parece ser no leste europeu, também há indícios de que pode ser na escandinávia... -- para um concerto dois dias depois, como parte de comemorações de grande relevância para os habitantes locais. já na entrada do hotel, o carregador de bagagens gustav lhe dissertará longamente sobre os códigos de ética e a dignidade de sua profissão (não seria kazuo revisitando mr. stevens, de "os vestígios do dia"?). e gustav é só o primeiro. a ele se seguirão, com diferentes desabafos ou demandas, o dono do hotel, o filho deste, uma condessa 'importante' na cidade, um ex-maestro outrora respeitado e agora aniquilado pelo álcool... e mais uma boa dezena de figuras bastante peculiares. dentre elas, não poderíamos deixar de citar nominalmente sophie e boris, filha e neto do carregador de bagagens gustav: os dois não parecem ser estranhos a ryder...
"o desconsolado" fora publicado no brasil na década de 1990 pela editora rocco, mas jamais consegui encontrá-lo à venda, e ele não está entre os livros do autor reeditados pela companhia das letras a partir de 2015. dessa forma, sou grato pela oportunidade de ter podido ler mais uma obra deste escritor que tanto admiro, embora eu não a inclua entre as minhas preferidas dele. sim, é reconhecível a beleza de sua escrita solene e suave, do começo ao fim, com execução técnica irreprochável. e sim, sim, estão nas entrelinhas as tão caras meditações de kazuo sobre como construímos (e distorcemos) a realidade por meio de nossas memórias individuais e coletivas. por outro lado, em minha percepção o livro se excede um pouco em dois aspectos.
o primeiro deles é a sobredose de descritivismo. concordo que isso é um ponto delicado, pois o descritivismo bem manejado é parte do que torna tão belas, coloridas, de traços impressionistas, as cenas que kazuo narra. mas para tudo há limite. ou eu ando em uma fase meio 'casca grossa' demais, ou as 912 páginas do romance caberiam confortavelmente em 600.
o segundo aspecto é o quão chata se revela a maioria das personagens secundárias. o contraponto aqui é que isso pode ser algo deliberado: será que com tanta gente irritante ishiguro quis nos imergir na aflição de ryder ouvindo suas lamúrias, ao ponto de ele mesmo, por vezes, ter a sensação (lembrança?) de fazer parte daqueles white-people-problems?
kazuo nos levou ao coração da guerra do ópio, em "quando éramos órfãos". expôs-nos ao trauma japonês nos anos logo após a 2ª guerra mundial, em "um artista do mundo flutuante". transportou-nos para uma idade média mítica, com dragões, feitiços e cavaleiros inclusos, em "o gigante enterrado". fez-nos até mesmo vislumbrar um futuro 'logo ali' no qual o mau uso da ciência apresentou à humanidade uma salgada fatura de dor física e emocional, em "klara e o sol" e em "não me abandone jamais". já aqui, a atmosfera é meio kafkiana. algumas situações carregam um quê de absurdo; o tempo tem uma elasticidade intrigante -- um pôr do sol pode se arrastar por horas, mas intensas lavagens de roupa suja de décadas parecem se desenrolar em poucos minutos.
tudo o que ryder queria era uma noite repousante após a cansativa viagem até ali e passar o dia seguinte treinando seu recital, após se assegurar da correta afinação do piano da sala de concertos. mas por mais que ele repita e repita e repita que tem 'tarefas extremamente importantes para cumprir antes da grande noite', ninguém lhe dá ouvidos. todos querem só falar. e ryder escuta.
ele escuta os medos paralisantes dos mais jovens sem elã para pegar as rédeas de seu próprio futuro. ouve frustrações e rancores dos mais velhos, que hoje tomariam decisões bem distintas das que tomaram no passado. sofre uma repreensão de umas 34 páginas por não ter comparecido a um chá ao qual ele nem sabia (lembrava?) ter sido convidado. se vê arrastado a sessões de cinema na madrugada e até ao enterro de um cachorro. em um raro momento a sós, ele se perde e acaba aos pés de uma muralha absurda e sem nexo, que interrompe uma avenida central, e que calha de ser o mais prestigioso cartão postal da cidade -- para mim, uma elegante metáfora da falta de abertura daquela gente para acolher e ouvir O Outro.
interessante ainda notar que o título original da obra em inglês, "the unconsoled, não permite distinção de número. se o considerarmos no singular, a ênfase estaria em ryder, desconsolado por não vislumbrar escapatória ao ser alçado ao posto de confidente de todo mundo, sem repouso, sem trégua e contra sua vontade. se o admitirmos no plural, os desconsolados seriam toda essa gente que despeja sobre o pianista a carga de questões pessoais e sociais que os atormenta em seus mundinhos estreitos... ou ainda -- mesmo ciente de meu atrevimento -- insisto na questão: e se formos nós também, leitores, os desconsolados (mas por opção, pois gozamos de livre arbítrio para abandonar a leitura ou prosseguir com ela) por experimentar na carne a angústia de ryder com seu desconsolo em escutar a enxurrada inesgotável de desconsolos alheios?
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