"Em cada escolha existe o descarte de tantos outros caminhos que poderiam ter sido, e a vida delineia-se pelo que foi decidido em determinado momento. E o que foi decidido abre-se para outras possibilidades, diferentes das que surgiriam se outros caminhos tivessem sido tomados. Assim, estamos sempre no limiar. Sempre entre o fim e o começo" (p. 141)
Imagine a sua melhor amiga ou seu melhor amigo. Provavelmente, conheceram-se na escola, ou quem sabe, na faculdade. Agora imagine vocês separados por mais de décadas e, um dia, surge a chance de um reencontro, sabendo que nem de longe vocês são as mesmas pessoas que se despediram um dia, e um pode estar precisando muito do outro. E muita coisa mudou.
Esta é a história de duas grandes amigas, Isabel e Camila, que se reencontraram depois de 20 anos, a convite desta, que acabava de voltar ao Brasil.
\CAMILA/
Era toda organizada na faculdade, sabia onde estava tudo, onde haveria as aulas e anotava mil coisas, futura profissional de sucesso. Era um exemplo de funcionária, apaixonada pelo trabalho. No entanto, a decisão que ela teve de tomar, eu não sei se conseguiria. Mais despojada, ela vai com a onda e é extremamente aplicada, quer chegar lá. Ela me surpreendeu com seus exageros dramáticos, o que denota certa inexperiência amorosa, a despeito de todo o poder e sucesso profissional. Ela resolve, então, virar sua vida em 180º.
E eu não poderia ter me identificado mais com ela.
\ISABEL/
Não gostava muito do próprio trabalho e contava apenas as horas de ir embora. Sempre com um livro a tiracolo e a vocação literária, ela se divertia com a dedicação desesperada dos colegas que gastavam dias em relatórios, quando ela os terminava em pouco tempo. Também me vi, em parte, na figura de Isabel. E ela tem uma forma de protestar contra irregularidades do mundo que me parece bem válida: tudo começa exatamente de onde você está... **Como quer mudar o mundo e o futuro se não mudar o próprio comportamento ou orientar aqueles que virão depois de nós?**
Mas Isabel também tem um armário cheio de esqueletos. E não pensa em enterrá-los tão cedo. Também me identifiquei muito com ela porque não gosta de ficar muito tempo no mesmo lugar e questiona as desigualdades do nosso mundo, coisas que eu já me peguei fazendo milhares de vezes.
"Pagam-se milhões a jogadores de futebol, mas quase nada a quem se dedica a educar pessoas. Está certo este mundo?"(p. 29)
Realmente... muita coisa mudou, nas duas amigas e entre elas; há todo um mundo entre as antigas perspectivas do futuro e a dura realidade atual, entre pôr valores e princípios em cheque, e reconhecer um lado maternal que nunca pareceu possível.
"O coração que se fecha, adoece." (p. 35)
O livro tem uma narrativa rápida, Flávia consegue contar anos de história em algumas linhas, permitindo que você acompanhe tudo direitinho e sempre se mantém na linha da expectativa, da esperança. Em meio a todas as perdas, ao empirismo de Camila e ao determinismo seletivo de Isabel, sempre existe algo que muda tudo.
\FABRIZIO/
Quem nunca se rendeu ao charme de um italiano, atire a primeira pedra. Era um renascentista que nasceu depois do tempo, um grande amante das artes. E gerou uma série de confusões em Isabel, acendendo, especialmente, suas reflexões sobre a libertação de corpo e de espírito.
"Será que existe alguém verdadeiramente livre, neste mundo?" (p. 76)
Os pontos que mais curti no livro foram: Raríssimos equívocos na revisão, um primor; A obra mostra a beleza e o horror do nosso cotidiano, das nossas decisões que pareciam inofensivas e viraram o barco – o que sempre me assustou mais do que fantasmas e trolls, porque o horror humano é algo que pode realmente te alcançar; Pura verdade, a sujeira no meio corporativo. Só sabe quem já viu; É um livro filosófico, reflexivo, com passagens muito gostosas de se ler e algumas me fizeram chorar - por afinidade ou por saber que quase tudo ali é verossímil e pode acontecer; É um livro muito maduro que mostra como frequentemente vemos o que queremos, e nada mais; ele faz várias críticas às convenções e padrões sociais; Temos aqui tradições irlandesas bem legais, coisas que eu não conhecia, como os ritos da primavera e os 12 dias entre Natal e festa de Reis; Ela nos situa num momento da história em que o machismo sobrepujou as tradições femininas e as parteiras foram caçadas como feiticeiras; Vemos, no livro, as voltas que a vida dá, os mistérios, e como certas coisas simplesmente giram até você... Porque estão fadadas a te encontrar.
"As mulheres têm seus segredos, sempre tiveram e sofrem quando não têm a quem confiá-los" (p. 101)
Alguns pontos que me deixaram pensando foram...
Alguns personagens tiveram reações muito exageradas, meio dramáticas. Há discussões que teriam sido concluídas com uma frase, um "Sim" ou um "Não"; É uma história belíssima, que apenas pesou um pouco com as reflexões muito densas.
Há momentos na vida em que você para e reflete sobre o que fez. Reconhece seus erros... E não entende por que certas coisas maravilhosas te acontecem, já que não acha que merece aquilo. Muitos de nós temos um pé preso no passado... E ele sempre volta para nos atormentar. Conflitos entre paixão, desapego, prisão e liberdade estão entrelaçados neste livro que eu recomendo para todas as idades.
Encontrem-se aqui, também. A realidade pode ser tão assustadora quanto os monstros da ficção... Ou mais!