O conto nos mostra o dia de Amerigo Ormea - "ex burguês", homem morno, da esquerda - que é selecionado pelo partido comunista para ser escrutinador nas eleições de julho de 1953, em Cottolengo de Turim, local que lhe desperta profundas indagações sobre política, religião, filosofia e amor.
Cotollengo é uma instituição de caridade real e na época em que a história se passa era vista como um enorme hospício, um lugar para aqueles que a Itália fazia questão de fingir que não existiam - "prejudicados, deficientes, aos deformados, e daí para baixo" -, pelo menos até precisarem dos votos deles para "garantir" a democracia. Lá a votação era feita por mentes que não sabiam o que aquilo significava, mas que cumpriam "a insólita prestação pública que lhes fora exigida" (já viu algo parecido por aí? Tipo em 2018?).
Descrevendo o lugar e as características físicas das personagens de forma extremamente desconfortável (tudo muito desproporcional, grotesco), Amerigo nos mostra como alguns votantes sentiam-se orgulhosos por finalmente serem reconhecidos como cidadãos, enxergando assim suas próprias existências perante uma sociedade que os escondia com repulsa (ignoravam o fato de que aquele dia de visibilidade existia somente devido à necessidade dos partidos de angariar votos).
Há muito o que refletir e falar sobre esse pequeno livro (ele é todo um arquétipo do processo democrático), mas são tantos detalhes que eu precisaria de muitas linhas... então apenas deixo minha indicação para essa jornada de um homem meia bomba, que se inicia com um dia chuvoso e termina em um pôr do sol avermelhado e triste.
Obs.: escrutinador é o responsável por acompanhar a validação dos votos nas sessões eleitorais.