A violência e o escárnio são aqui duas faces discrepantes da oposição ao poder político vigente. A primeira consubstancia-se na atitude heróica, em que o militante, levando a sério os políticos de Estado, se sacrifica pela causa; a segunda assenta num absoluto desprezo pelas instituições estatais e seus dirigentes, encarando estes últimos como os títeres de um mundo grotesco e aviltante. A ação da presente narrativa decorre paralelamente a esse conflito. Numa grande cidade dirigida por um governador despótico e burlesco, um grupo de amigos, amantes do riso e de outros prazeres da vida, inventa uma nova forma de combate político: a farsa que não parece farsa. E, desenvolvendo uma atividade que profundamente os diverte (e neles aguça o sentido de humor), põem fora do poleiro o detestado líder. Irônica reflexão sobre o poder, A VIOLÊNCIA E O ESCÁRNIO exprime a paradoxal e salutar perspectiva de Cossery, que às nevróticas gesticulações dos homens opõe o desprendimento e a contemplação - sempre assentes na rejeição do sacrifício.
