Poemas de Deus e do Diabo -

    José Régio

    Quasi Edições
    1984
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-13: 9789728632717
    Português Brasileiro

    Primeiro livro de versos de José Régio, publicado pela primeira vez em 1925. Nele se inclui o conhecido poema Cântico Negro. Com um posfácio do autor (Introdução a uma obra) escrito em 1969, em Vila do Conde.

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    Tidan23/09/2022Resenhou um livro
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    Meu primeiro poema preferido

    Cântico Negro "Vem por aqui" – dizem-me alguns com olhos doces, Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui"! Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos meus olhos, irônias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali ... A minha glória é esta: Criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. – Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre a minha Mãe. Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos ... Se ao que busco saber nenhum de vós responde, Por que me repetis: "vem por aqui"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí ... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos? ... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos ... Ide! tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátrias, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios. Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos bos lábios ... Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém. Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou ... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou, – Sei que não vou por aí!

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