Cabo Josino Viloso” é uma novela do escritor sergipano Francisco J. C. Dantas. Esse é o quinto livro publicado pelo autor, cuja primeira edição é de 2005. Dentre todos os títulos que compõe a prateleira da sua vasta obra literária, a história de Josino Viloso passa despercebida pela maioria dos leitores, mas, apesar desse desconhecimento, há algo de marcante nessa prosa de ficção que me provocou o interesse de escrever essa resenha: a jornada do escritor.
Dito isto, começo com um breve resumo contextual. A narrativa acompanha a empreitada de Josino Viloso para se tornar delegado na cidade fictícia Alvide, localizada no interior do Nordeste. Sua história vem à tona a partir do narrador de um outro livro do escritor sergipano, “Sob o peso das sombras”. Justino Vieira reaparece como o contador de histórias que traz à baila as desventuras de um sujeito empenhado a valorizar as palavras em detrimento dos punhos.
Diante dessa constatação, há em Josino Viloso uma releitura do herói de Cervantes. Ler o livro a partir dessa associação, cria a sensação de que estamos diante de um Dom Quixote sertanejo que enfrenta causas perdidas. Os discursos evocados em diversas cenas narrativas revela essa aproximação literária, pois, assim me parece, a personagem de Francisco Dantas apela para as palavras ao invés de usar a força.
Tal intertextualidade não ocorre pelo viés da repetição, mas através de uma reconstrução de sentidos. Faço essa afirmativa tendo em vista que Josino Viloso não cria devaneios, como seu antecessor Dom Quixote, mas tenta impor ordem em uma terra de desordem.
Não obstante, há nesse herói características de João Grilo, icônico personagem do “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna. As trapalhadas, o discurso cômico e as astúcias são alguns pressupostos que fortalecem esse encadeamento, permitindo-me reconhecer como outras histórias ressurgem nessa nova história.
À luz desse paradigma entre o velho e o novo, surge a seguinte questão: há sempre a escrita das mesmas histórias? Adianto ao leitor que não. Apesar das aproximações com outras narrativas, a história de Josino Viloso está afetada por um projeto de leitura do escritor sergipano, realizando essas reciclagens para enfatizar uma das suas grandes obsessões: a memória.
Por conseguinte, a publicação de um livro que conta a história de um personagem considerado desinteressante pela grande maioria da recepção leitora contemporânea, demonstra o quanto os aspectos regionais estão cada vez mais marginalizados pelo interesse global. Essa constatação me permite afirmar o porquê da escrita memorialística possuir tanta evidência: relembrar, através da literatura, o que está perdido na vida.
Sendo assim, reconheço na jornada de Josino Viloso a metáfora da jornada do escritor. Ao se tornar delegado, o herói dita para si mesmo a tarefa de ser líder do povo de Alvide. Esse contexto, em uma relação entre realidade e ficção, possibilita-me a interpretação de que o escritor - metaforizado pela função social de delegado - escreve o seu livro, utilizando a sua obra para liderar os seus leitores (povo de Alvide) para o reconhecimento de um passado perdido.
Portanto, a intertextualidade e a memória traduzem na ficção a jornada do escritor tardio que, ainda vivo, vivenciou as mudanças do tempo, oriundas da modernização, cuja vida global cria interesses transnacionais, padronizando os gostos sociais, inclusive na literatura. Acompanhar a jornada de Josino Viloso é a possibilidade de reviver os “sabores” de um regionalismo em decadência.