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    Cabo Josino Viloso -

    Francisco J. C. Dantas

    Editora Planeta
    2005
    150 páginas
    5h 0m
    ISBN-10: 8576650673
    Português Brasileiro
    3.9
    9 avaliações
    Leram13Lendo4Querem21Relendo0Abandonos0Resenhas1
    Favoritos1Desejados21Avaliaram9

    Nesta novela de pulsação memorialística, Dantas cria um personagem que deveria figurar ao lado de João Grilo de Ariano Suassuna e de Malazarte de Graça Aranha, como observa Benedito Nunes. Cabo Viloso foi o único militar que aceitou o desafio de assumir a Delegacia do Alvide, uma terra de desocupados e de valentões. Os dois concorrentes ao posto, homens de mais juízo, desistiram à última hora e ainda lhe abriram os olhos: "Cuidado, companheiro, o chão do Alvide é imprestável. Só acolhe cria de cobras, de lacraias e de onças". Mas o Cabo bateu o pé. Ali começaria o seu futuro, pensava. Seus superiores não enxergavam suas melhores qualidades, como a inteligência e a bravura. Só destacavam nele a cabeça de tijolo, o peito de argamassa. Compenetrado de sua missão, o Cabo se mostrava determinado a sacrificar os seus ócios e talentos pela paz de seu Estado. E Cabo Josino não estava para brincadeira.

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    Pedro Rezende picture
    Pedro Rezende23/05/2026Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Intertextualidade e memória em “Cabo Josino Viloso”: uma reflexão sobre a jornada do escritor

    Cabo Josino Viloso” é uma novela do escritor sergipano Francisco J. C. Dantas. Esse é o quinto livro publicado pelo autor, cuja primeira edição é de 2005. Dentre todos os títulos que compõe a prateleira da sua vasta obra literária, a história de Josino Viloso passa despercebida pela maioria dos leitores, mas, apesar desse desconhecimento, há algo de marcante nessa prosa de ficção que me provocou o interesse de escrever essa resenha: a jornada do escritor. Dito isto, começo com um breve resumo contextual. A narrativa acompanha a empreitada de Josino Viloso para se tornar delegado na cidade fictícia Alvide, localizada no interior do Nordeste. Sua história vem à tona a partir do narrador de um outro livro do escritor sergipano, “Sob o peso das sombras”. Justino Vieira reaparece como o contador de histórias que traz à baila as desventuras de um sujeito empenhado a valorizar as palavras em detrimento dos punhos. Diante dessa constatação, há em Josino Viloso uma releitura do herói de Cervantes. Ler o livro a partir dessa associação, cria a sensação de que estamos diante de um Dom Quixote sertanejo que enfrenta causas perdidas. Os discursos evocados em diversas cenas narrativas revela essa aproximação literária, pois, assim me parece, a personagem de Francisco Dantas apela para as palavras ao invés de usar a força. Tal intertextualidade não ocorre pelo viés da repetição, mas através de uma reconstrução de sentidos. Faço essa afirmativa tendo em vista que Josino Viloso não cria devaneios, como seu antecessor Dom Quixote, mas tenta impor ordem em uma terra de desordem. Não obstante, há nesse herói características de João Grilo, icônico personagem do “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna. As trapalhadas, o discurso cômico e as astúcias são alguns pressupostos que fortalecem esse encadeamento, permitindo-me reconhecer como outras histórias ressurgem nessa nova história. À luz desse paradigma entre o velho e o novo, surge a seguinte questão: há sempre a escrita das mesmas histórias? Adianto ao leitor que não. Apesar das aproximações com outras narrativas, a história de Josino Viloso está afetada por um projeto de leitura do escritor sergipano, realizando essas reciclagens para enfatizar uma das suas grandes obsessões: a memória. Por conseguinte, a publicação de um livro que conta a história de um personagem considerado desinteressante pela grande maioria da recepção leitora contemporânea, demonstra o quanto os aspectos regionais estão cada vez mais marginalizados pelo interesse global. Essa constatação me permite afirmar o porquê da escrita memorialística possuir tanta evidência: relembrar, através da literatura, o que está perdido na vida. Sendo assim, reconheço na jornada de Josino Viloso a metáfora da jornada do escritor. Ao se tornar delegado, o herói dita para si mesmo a tarefa de ser líder do povo de Alvide. Esse contexto, em uma relação entre realidade e ficção, possibilita-me a interpretação de que o escritor - metaforizado pela função social de delegado - escreve o seu livro, utilizando a sua obra para liderar os seus leitores (povo de Alvide) para o reconhecimento de um passado perdido. Portanto, a intertextualidade e a memória traduzem na ficção a jornada do escritor tardio que, ainda vivo, vivenciou as mudanças do tempo, oriundas da modernização, cuja vida global cria interesses transnacionais, padronizando os gostos sociais, inclusive na literatura. Acompanhar a jornada de Josino Viloso é a possibilidade de reviver os “sabores” de um regionalismo em decadência.

    4 curtidas

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    3.9 / 9
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    Francisco J. C. Dantas profile picture

    Francisco J. C. Dantas

    Francisco J. C. Dantas é de origem rural; nasceu no engenho do avô em Riachão do Dantas, Sergipe, a 18 de outubro de 1941, e só entrou na Universidade aos 30 anos, quando já era casado e pai de uma menina. É arredio e reservado. Escritor do seu chão, sempre conviveu indiscriminadamente com bichos e livros. Autodidata, foi menino de bagaceira, diretor de escola, cavaleiro de pastos solitários, tabelião, foleador de formiga pelas madrugadas, caçador de alguns viventes noturnos e diurnos - fotógrafo. Montou laboratório apenas para reter a memória dos tempos que findavam; daí que tentasse evitar que amarelassem, agarrando-os na palavra. É árvore de raiz funda e só deixou o Sergipe para mestrado e doutoramento; de uma feita voltou com tese sobre Osman Lins e, de outra, sobre Eça de Queiroz. É professor na Universidade Federal de Sergipe mas peleja mais com animais que com gente; na roça tem criatório de bichos miúdos e graúdos, para os quais ouvido e faro são sempre apurados. Tem publicado contos e ensaios em revistas especializadas. Lançou ainda dois romances pela Companhia das Letras, <i>Cartilha do silêncio</i> (1997) e <i>Os desvalidos</i> (1993). Recebeu em 2000 o Prêmio Internacional União Latina de Literaturas Românicas.

    8 Livros
    10 Seguidores
    Sergipe, Brasil

    Francisco J. C. Dantas