Narrar uma história do ponto de vista de um objeto inanimado é o recurso utilizado por Andrea Kerbaker para contar os relatos pessoais de seus objetos culturais favoritos. O autor italiano dá frescor e personalidade à sua trilogia, criando novelas de leitura, fluidez e originalidade raras. Os livros são um conjunto de obras sucintas, inteligentes e divertidas para todos os gostos, mas em especial para os apreciadores de música, literatura e cinema. Em toda a trilogia, o escritor faz narrativas singelas e comoventes nas quais aproveita para desfilar seu grande conhecimento e suas preferências particulares nas áreas da canção pop, dos livros e dos filmes. Dez Mil, Autobiografia de um Livro - outro integrante da trilogia - começa num dia 5 de abril quando o autor adquiriu o livro de número dez mil de sua coleção particular. Como parte das comemorações, um dos títulos de sua biblioteca pede a palavra e relata sua vida da qual fazem parte boa parte da história e da literatura do século passado. Enquanto o protagonista narra sua passagens por estantes e mãos curiosas, personagens como John Steinbeck, Ernest Hemingway, André Gide, J.D. Salinger, Albert Camus, D.H. Lawrence desfilam, na forma de suas obras, pela deliciosa narrativa de 84 páginas.
dez mil - autobiografia de um livro
Andrea Kerbaker
Edições (1)
Ver maisA visão do Livro. Isso mesmo, ao ler, acompanhamos pelos olhos de certo volume – não explica qual exatamente seu título e autor, mas fica ali, perto de Hemingway – e suas frustrações de não ser escolhido pelos leitores, de permanecer por muito tempo abandonado na prateleira. Alguns passam próximos à sua estante, outros o tiram de lá, mas às vezes o devolvem. “Estava tão satisfeito em ter o meu espaço no centro da cidade. Numa loja onde os donos e os vendedores leem você, conhecem os segredos guardados”. Hoje não é assim, poucas vezes encontramos em livrarias atendentes leitores. Muitos não conhecem os best-sellers do momento, imagina então os grandes clássicos?! Uma triste realidade de um Brasil que quase não lê. As estatísticas apontam que o brasileiro lê 1,8 livros por ano, imaginemos então, quantos milhões de pessoas nem sequer têm o interesse em dedicar algumas horas a esse nobre prazer que é a leitura! A leitura não é para classes, ler é para quem tem interesse e ponto. Reclama-se do valor do livro. Mas não há muitos leitores no Brasil para mudar, diminuir o preço. Não podemos comparar com Estados Unidos, leitores e valores – sempre uma referência em tudo o que se faz aqui, infelizmente –, onde ler é mais do que obrigação, desde sempre mostram às crianças a importância, em casa, na escola, universidade e assim vai. Por isso o valor é tão inferior aos daqui, há leitores. Mas os dias passam, o Livro consegue algumas companhias, e que seu objetivo seja alcançado, ou seja, ser lido. Ele teve mais de um dono, mais de um leitor durante sua história. Porém, ainda assim poucos. Uma obra merece ser lida e divulgada, espalhada. Muito têm aquele livro secreto, que querem guardar para si, e a maioria dos leitores de verdade querem gritar para todos encontrei um novo e incrível livro, leiam, leiam!, porém, quase sempre esse grito se faz frustrado. Há alguém ouvindo? Deixar um livro abandonado na estante apenas para mostrar a possibilidade de um leitor que não o é, é fácil. Compremos uma enciclopédia e uma estante bonita para mostrar a todos nossa casa e/ou escritório intelectual, mas onde se encaixa o momento da leitura real? Não digo para ler somente livros da moda ou clássicos, leia o que quiser, mas leia. Tire o livro da estante e sente-se numa praça, na cama, ou em seu lugar favorito e leia, dê esse prazer a você e ao livro, ele existe, ele vive. “O trauma da televisão é uma lembrança animadora. Se consegui superar uma coisa dessas, posso então enfrentar de cabeça erguida qualquer contagem regressiva. Que aliás, repito, ainda não é definitiva. Pois lutarei com todas as minhas forças para sobreviver”. Dez mil – a autobiografia de um livro (Editora Rocco, 2003, 84 páginas, R$24) é simples, rápido, encanta e prende, mostra a tristeza de um livro abandonado e a alegria de um livro lido, uma obra que saiu da estante para existir, afinal, não é depois que o autor conta em papel sua história que ela passa a ser, na verdade ela só está viva se for lida. Um livro abandonado existe apenas para si, e isso é como a morte. ***** Outras resenhas: Mundo de Fantas no mundo dos livros http://mundodefantas.blogspot.com/
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