Que pensar de uma guerra em que morrem 99,74% da população adulta masculina do país "inimigo"? Conflito bélico ou genocídio? Sob a instigação da Inglaterra, a guerra contra o Paraguai - o mais importante conflito em que o Brasil se envolveu, ao lado da Argentina e do Uruguai - revela crimes de guerra cometidos por mitos heróicos como Caxias, Tamandaré, Osório... Enfoque corajoso de uma realidade sistematicamente ignorada pela história oficial, a exigir urgente e reparadora revisão crítica.
A guerra contra o Paraguai - Tudo é história
Júlio José Chiavenato
A Guerra Contra o Paraguai
Jornalista por formação, o paulista Júlio José Chiavenato desmitifica neste opúsculo o tradicional chavão que se mantém de pé entre alguns historiadores de que “jornalista não é historiador” ou que “jornalista não é capaz de produzir ciência histórica”. O que se verifica é sim ciência histórica, conhecimento científico, apesar de um tanto limitado em questões de análise, mas que é compensado pelo fato de todo o texto se estruturar de forma cronológica e sutilmente descritivo, que confere um ar de narrativa e demasiada leveza, se sou capaz de perceber ou julgar tal. Tendo como proposta uma leitura introdutória, a Coleção Primeiros Passos e o próprio autor conseguem sucesso com mais esta obra: Chiavenato consegue construir uma escrita envolvente e de fácil compreensão; quase que excessivamente objetivo, consegue ser mesmo impactante em suas explicações diretas. Mas se escrever história parece soar como glória a um jornalista, a limitação de sua formação é bastante perceptível aos leitores mais atentos e tanto mais distantes da observação laica: se não adepto da corrente historiográfica que se edificou sobre as idéias de Karl Marx, ao menos produto das décadas em que esta linha teórica se manteve “dominante” na historiografia brasileira Chiavenato certamente é. Sempre considerando a estrutura econômica como a base para todo o processo histórico; quase que exagerando em suas reconstruções do perfil econômico do perdedor da guerra em questão (Paraguai) pelo fato de seus governantes terem conseguido atingir considerável grau de progresso econômico de forma socialmente igualitária e preocuparem-se com as camadas mais baixas da sociedade – inclusive a quem o próprio se remete também como “proletários”. A própria noção de “ideologia” que se percebe no trecho correspondente às causas da guerra é claramente marxista. Obviamente que não é a linha teórica que exatamente torna a obra limitada, aos olhos deste que escreve, mas o fato de focar-se apenas nas questões econômicas e políticas deste episódio, o que, como se sabe, não é singularidade dos marxistas; as chamadas superestruturas são deixadas de lado. Mas isto, porém, não se de primeira mão condenar, visto que a proposta, como já citada, é realmente a introdução do leitor no assunto. Passemos então a observar a obra em sua organização. Após a breve e condensada introdução, resumo sucinto de todo o conteúdo abordado, a obra é disposta na seguinte estrutura: descrição da conjuntura e econômica e política do Paraguai no dado recorte espaço-temporal; na sequência, faz-se o mesmo com as demais nações beligerantes; esmiuça Chiavenato o que ele aponta como as causas da guerra, ou os interesses dos vizinhos dos “guaranies” em empreender o conflito; descreve-se, como não poderia deixar de ser, as atrocidades e ultrajes cometidos pelo comando do exército brasileiro; e conclui-se o texto de forma dramática e impactante – mas não exatamente tendenciosa – expondo as deploráveis baixas e a situação deplorável em que o Paraguai saíra desta. Quando menciona a situação em que a economia paraguaia se apresentava, o autor o faz defendendo que, graças às reformas implantadas por José Rodríguez Gaspar de Francia, que, apesar de destituir os poderes das classes dominantes, alavancaram o status socioeconomico do restante da população de forma incrivelmente igualitária. Segundo Chiavenato, “A produção aumentara. O progresso chegava lentamente. Francia introduz novos métodos na agricultura, incentiva a instrução pública e os índios podem aprender a ler e a escrever sem a camisa-de-força da gramática artificial dos jesuítas.” (CHIAVENATO, 1990: 13). Tudo que o Paraguai consumia ele mesmo produzia: a autosificiência na produção era uma realidade. A grande questão que os guaranies precisavam solucionar era: “como converter os excedentes produtivos em condições para melhor desenvolvimento tecnológico?”. A resposta era simples, exportando para seus vizinhos, mas o problema em solucioná-la é exposto juntamente com as colocações sobre a situação dos componentes da Triplice Alicança. Enquanto que o pequeno Paraguai mostrava-se forte e produtivo por conta de sua renda destribuida, o Brasil era, nas palavras do autor “um gigante anêmico”. Ainda escravocrata, o Brasil tinha boa parte de sua população sem salários, e praticamente toda sua produção era focada n a agricultura e voltada para os mercados europeus, especialmente Inglaterra. Todos os produtos manufaturados, desde agulhas, eram importados, também dos Ingleses. Em situação similar a do Brasil, na época, a Argentina tem o latifúndio como sua base econômica, servindo especialmente para criar gado, do qual se exportava praticamente tudo. Os ingleses faziam deste país a pouco independente outro fidelícimo cliente; e o piór, também como o Brasil desde o empréstimo para a independência, Argentina encontra-se chafurdada em dívidas para os ingleses. Em situação ainda mais desesperadora encontrava-se o Uruguai: aliado de contra peso dos dois gigantes da Aliança, era usado pelos pecuaristas brasileiros e paraguaios como “pasto particular”: os rebanhos estrangeiros (dos vizinhos) eram levados para suas gordas pastagens e criados por escravos brasileiros. O país realmente prendia-se a dominação financeira dos vizinhos e aliados; seu povo vivia em miséria e sua pequena burguesia vivia em fartura, situação totalmente contrária pela qual o Paraguai passava, onde as riquezas haviam sido distribuidas e o povo gozava de estabilidade e dignidade. Já a Inglaterra, fortemente envolvida em todo este contexto, tinha sua industria transformada na maior expressão econômica do mundo por conta do advento da máquina a vapor na Primeira Revolução Industrial, subsidiada financeiramente pelos enormes tesouros acumulados pelos piratas no século anterior. Chiavenato deixa muito claro em toda sua narrativa que a Inglaterra era na realidade a mão que movia as peças no tabuleiro da guerra, pois toda a Triplice Aliança era presa a ela por brutais grilhões da abstração do favoritismo, sistema de clientelismo a que alguns historiadores chamaram de neocolonialismo. Os ingleses dominavam tudo, e seu maior lacaio era a débil nação tupiniquim. Enquanto isso, o Paraguai se mostrava independente e próspero, tudo o que qualquer potência almejava. Porém, seu desenvolvimento, justamente no coração do continente sulamericano ameaçava os interesses e o clientelismo ingles, além de deixar aguçados os sentidos dos vizinhos rivais. E para completar o quadro de inveja por parte dos vizinhos, quando Francia dera o golpe de Estado que o colocara no poder, expulsou toda a aristocracia do clero católico do país e nacionalizou a Igreja. Este fator constituia o álibe que os Aliados necessitavam para legitimar sua invasão perante o mundo: o combate à “barbárie”. Seriam estas as principais causas da guerra, que o autor apresenta na segunda parte da obra. Ao abordar a situação militar do Brasil, a forma com seu exército se organizava, Júlio José de mostra um tanto quanto indignado, tanto quanto quando comenta o trabalho dos historiadores brasileiros ligados ao Império em justificar, legitimar tamanha atrocidade de caráter subimeperialista, e que se prolongou durante o regime militar sob a idéia de valorização do nacionalismo. Explica que o Brasil não possuia exército de guerra suficiente para tamanho empreendimento, e que para isto, passaram a aceitar voluntários que na verdade eram homens realmente sequestrados e pagos por preços fixos pelo governo. Comenta também a idéia de “branqueamento” da população que era alimentada pela aristocriacia brasileira. Segundo estes, dos quais faz parte e destaca-se o estadista e historiadore Joaquim Nabuco, deveriam stimular a imigração de europeus e, aos poucos aniquilar a população negra alforriada para assim elevar a qualidade do povo brasileiro. Essa idéia era paltada na absurda visão de que as etnias caucasianas eram superiores – intelectual e fisicamente – aos afros e nativo-americanos. E, neste quadro, noventa por cento dos soldados brasileiros eram negros. Assim, guerra se apresentava como ótima oportunidade para a concretização destes ideais. Nos capítulos dedicados à abordagem do conflito em si, são descritas as maiores atrocidades que o ser humano é capaz de cometer. Após a investida a Assunção, capital do país, a guerra se torna verdadeira expedição de ladrões e vândalos agindo ao lado dos que massacram o resto do povo. Aguerra poderia ter acabado já em 1867, mas o comando do exército – principalmente brasileiro – estava lucrando muito com ela – e empobrecendo o Brasil... Com a morte de praticamente toda a população masculina maior de idade, as crianças não são poupadas: uma das batalhas mais trágicas da guerra, a de Acosta Ñu, em1869: morreram dois mil paraguaios e sessenta e dois brasileiros. Por fim, no ápice da narrativa, Júlio José Chiavenato descreve a cena da morte de Francisco Solano López e seu filho, tão trágico quanto poderia ser, e termina mais uma vez batendo na tecla da tendenciosa deturpação histórica deste conflito por parte de gerações de historiadores, talvez incitando o trabalho de futuros. Referência Bibliográfica: CHIAVENATO, Júlio José. A Guerra do Paraguai. Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense, 1990.
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