O que mais impressiona em Le Père Goriot talvez seja sua atualidade. Embora tenha sido publicado em 1835, o romance retrata conflitos que permanecem familiares: a busca por status social, a pressão para aparentar sucesso, relacionamentos atravessados por interesses materiais e a tendência de valorizar as pessoas pelo que elas podem oferecer. Balzac mostra uma sociedade obcecada por prestígio e reconhecimento, na qual muitos sacrificam princípios, afetos e até a própria felicidade para ocupar uma posição mais elevada.
Ambientado na modesta pensão de Madame Vauquer e nos salões da aristocracia parisiense, o romance apresenta personagens movidos pela ambição, pela necessidade de ascensão social e pela busca incessante por dinheiro e posição.
À primeira vista, a tragédia central parece ser a de Goriot, um pai que sacrifica tudo pelas filhas e recebe em troca apenas indiferença e exploração. No entanto, ninguém está verdadeiramente livre das deformações produzidas por essa sociedade: As filhas de Goriot são interesseiras, mas também profundamente dependentes emocionalmente de seus amantes. Os aristocratas defendem a honra enquanto calculam vantagens. Os casamentos são tratados como transações financeiras.
No meio desse mundo de interesses, ambição e aparências, vemos surgir um afeto genuíno entre Goriot e Eugène de Rastignac. Através desse afeto, Eugène começa a ver sem ilusões o mundo ao qual ele quer pertencer.
A grande tragedia, no entanto, é mais profunda: a futilidade de tudo aquilo pelo que os personagens lutam. Fortunas desaparecem, paixões se desgastam, títulos perdem significado, ilusões são destruídas. Ao final, resta uma verdade desconfortável: por trás das diferenças de classe, riqueza e prestígio, todos compartilham as mesmas fragilidades humanas.