Tempos atrás o site da Amazon reproduziu uma afirmação de Sérgio Sant'Anna, que disse se dar melhor com formas mais breves de narrativas, contos, do que com romances, porque naqueles ele podia experimentar mais. De fato, os doze contos presentes em O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982) parecem estar bem pouco para contos tradicionais e muito mais para “narrativas” (ainda que curtas ) ou “formas breves”, como preferia o argentino Ricardo Piglia.
Assim, podemos iniciar a leitura de uma dessas formas breves, por exemplo a primeira, Uma Página Em Branco, que começa assim: “Uma página em branco a oferecer todas as possibilidades, o papel aceita tudo.” O papel aceita tudo e o leitor também vai aceitar, nem de longe vai conseguir imaginar como essa narrativa vai se desenvolver e terminar. O tradutor dos livros de SSA publicados na Argentina é, curiosamente, o escritor César Aira, também um apreciador de narrativas curtas e insólitas. Muito insólitas, na verdade, como algumas que encontramos aqui.
E há outro argentino com quem os textos de SSA dialogam bastante: seus contos se assemelham um tanto aos de Julio Cortázar, que muitas vezes são labirínticos. Ambos os autores têm uma imaginação pródiga e ela vai levar o leitor para descaminhos tantos que algumas páginas depois do início de uma história ele nem mais vai se lembrar como tudo começou e vai se perder até que essa história (ou histórias que vão surgindo) chegue ao final. Que, quase sempre, é bastante surpreendente.
Em O Submarino Alemão, uma autoficção, temos SSA e uma obsessão onírica, quer dizer, entender um sonho de seu pai, que havia encontrado um submarino alemão afundado, dentro do qual havia esqueletos e um mapa. Ele queria entender o significado disso, e se o leitor acha que vai ter Freud como citação está completamente certo. Mas tem muito mais, porque se se fala o tempo todo do sonho, também se fala no trabalho da escritura ficcional. Ao final SSA imagina como aqueles louros rapazes, com o afundamento do submarino – e como metáfora, do império nazista – agora valem o mesmo que peixes mortos.
Experimentalismo, memória e sexo são característicos nos contos do autor. Num dos últimos textos do volume, O Sexo Não é Uma Coisa Tão Natural, as coisas são chamadas pelos seus nomes populares, mas o modo como ele fala delas não é nada popularesco, assim como nos demais textos. Pode lembrar um pouco Rubem Fonseca, mas este fala mais cruamente sobre sexo do que SSA. Quanto a experimentar e puxar pela memória, fato e ficção, as coisas também vão bem longe no conto que dá título ao livro, esse do concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, mais especialmente no famoso Canecão dos anos 1970, que não houve.
Se começamos com Uma Página Em Branco, terminamos com o estranho Conto (Não conto), assim mesmo, que é sobre um lugar vazio, onde pouca coisa existe, uma cobra e alguns insetos. Mas surge um homem montado num cavalo, que é picado pela cobra, o cavalo, não o homem. E mais não vou contar, como diz o subtítulo, entre parênteses. E tome metalinguística sobre a existência do homem, do cavalo, da cobra, do conto, do próprio autor...
Lido entre 01 e 08 de outubro de 2025.