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    Retratos imorais -

    Ronaldo Correia de Brito

    Alfaguara
    2010
    184 páginas
    6h 8m
    ISBN-10: 8579620228
    Português Brasileiro
    3.5
    38 avaliações
    Leram62Lendo2Querem70Relendo0Abandonos2Resenhas5
    Favoritos3Desejados70Avaliaram38

    Retratos imorais é um livro inquietante; sua primeira impressão é a do choque. Ronaldo Correia de Brito se distancia de suas obras anteriores, amplifica as tensões íntimas de Galileia para criar uma coleção de contos cheia de fúria, de dor, que vibra com uma força criadora pouco vista na literatura brasileira. Divididos em três seções, como a exposição de retratos numa galeria, os contos nos mostram figuras de homens e mulheres despedaçados, assombrados pela memória e pelo impacto do presente. Mãe e filho numa relação obsessiva, um garoto que sonha o grande mundo, um cirurgião que no momento crítico se sente paralisado. No conto que dá título ao livro, um homem lancinado no leito hospitalar, arrependido da vida violenta que levou até então, nos atira no abismo: Meu nome é Claudiney Silva. Num álbum de fotografia que hoje folheio horrorizado, apareço abraçando uma menina. É minha filha. Suas imagens, suas frases, seus personagens desconcertam, mas nos levam a um domínio mais profundo da literatura, que atinge a essência de cada um de nós.

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    Rafael de Souza Menezes09/08/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    “O mundo cheira a talco ordinário, a bosta e mijo secando debaixo do sol quente de fevereiro, nos becos estreitos da cidade enlouquecida. Ecos desse carnaval às emergências dos hospitais com os sobreviventes bêbados e feridos (…) Nenhum aroma de jasmim atravessa as portas envidraçada. Entre as macas, enfileiradas como nas praças de guerra, os anjos de roupa branca suja caem pelas tabelas.” Trecho extraído do conto Catana. Devo confessar que nunca fui grande fã de contos, portanto a tarefa de iniciar minhas postagens neste coletivo com um livro de contos me pareceu uma ironia do destino, dessas que geralmente acontece em nossas vidas. Entretanto venho humildemente dizer que esse é um dos melhores livros de de contos que li na minha vida, é impossível se manter indiferente com algumas das histórias no presente volume. Como o trecho acima demonstra Ronaldo cria um fascínio em suas descrições que pega o leitor seja em uma produção de fôlego como no recente Galiléia, ou até na história de duas páginas de “Homem de unhas pintadas com base de esmalte”. Sua linguagem é concisa e precisa, ao mesmo tempo que traz inovações e citações diversas, desde a Bíblia até filmes contemporâneos. O livro é dividido em três partes: Retratos Dispersos, Retratos de Mães e Retratos de Homens. Essa divisão é muito mais organizacional pois mesmo dentro das partes as histórias tem uma pluralidade imensa. Podemos notar as mais autobiográficas como “Pai abençoa Filho”, que claramente explora a saída do Nordeste para a cidade grande, tema recorrente na obra de Brito, passando por contos que exploram relações maternais, a violência da cidade, relações homossexuais e até mesmo um relato fantástico sobre um lobisomem em “Homem borgiano espreitando o lobo”, que alias é um dos mais interpretativos do volume. O livro é no fundo uma coletânea de mais de 40 anos de contos nunca publicados, que ele “tirou da gaveta”. A ligação entre eles é feita por alguns temas que ficam pululando dentro do livro com a presença da religiosidade e as muitas facetas dela, a violência e o desespero sempre presente em qualquer cenário e muitas referências que dão o tom de cada conto como uma fotografia de Polidori ou um poema Whalt Whitman. Esse leque de temáticas deixaram-no preocupado com a falta de unidade que a obra poderia ter, como ele confessa no posfácio, mas creio que a multiplicidade de temas sejam o ponto mais forte da obra. Por isso ao mesmo tempo que Retratos imorais parece ser um retorno as origens de sua literatura, sendo que seus primeiros livros eram de contos, ele também é uma evolução. Faca (2003) e o Livro dos Homens (2005) tem o mesmo estilo que o caracterizam mas são ligados muito a temática regionalista, enquanto Retratos está muito mais enraizado nos personagens complexos que ele cria. Destaco dois contos que para mim já estão entre os melhores da literatura brasileira: O que abre o volume “Duas mulheres em preto e branco” e o fantástico “Catana”. No primeiro uma mulher espanca sua melhor amiga por ter dormido com o marido dela, em uma conversa seguida de violência as duas vão até o limite e levam o leitor a descobrir que as emoções referentes ao coração são mais complexas e não tão óbvias como se supõem no começo. Tem final surpresa! Em “Catana”, do trecho que reproduzi, dois cirurgiões e uma enfermeira debatem-se entre a vida e a morte enquanto operam um bandido baleado prestes a morrer. O interessante são as perspectivas apresentadas, a enfermeira só pensa na Igreja e no filho que pode estar usando drogas, o primeiro médico quer exercer sua função o melhor possível e o segundo acha que poderiam matar o bandido na mesa de cirurgia e seria menos um assassino no mundo. Confronto entre o bem e o mal cria uma zona cinza na qual tomar partido pode ser perigoso para o leitor. Cada conto tem um estrutura diferente e um ritmo diferente alguns são extraordinários outro são normais, mas como disse anteriormente é difícil sair indiferente ao mundo exposto em 7 páginas. A razão de não ler muito livros de contos é que são muitas histórias e acabo perdendo o interesse em termina-los no meio, sempre preferi coisas extensas que ficam por mais tempo na cabeça, mas digo isso para enfatizar que a leitura de Retratos me prendeu muito do começo ao fim. Só havia sentido isso anteriormente em Boca Do Inferno, de Otto Lara Resende, para mim o grande livro de contos da nossa literatura. Retratos tem o lançamento oficial hoje, terça-feira, e nesta quinta o autor ganhador do Prêmio São Paulo 2009 estará na FLIP discutindo juntamente com Reinaldo Moraes e Beatriz Bracher os rumos da literatura contemporânea. Me assusta quando no posfácio ele informa que as vezes pensa em parar de escrever, tomara que esses pensamentos sejam pura frescura de escritor. Se os contos que ele tinha guardado na gaveta deram só esse livrinho creio que podemos esperar muito de sua obra. http:\\espanadores.blogspot.com

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    • 4 estrelas21%
    • 3 estrelas32%
    • 2 estrelas21%
    • 1 estrelas0%
    Ronaldo Correia de Brito profile picture

    Ronaldo Correia de Brito

    Nasceu na cidade de Saboeiro, no sertão dos Inhamuns, no Ceará. Quando tinha cinco anos, sua família mudou-se para o Crato, na região dos Cariris. Aos 17, foi estudar Medicina em Recife. Sempre dividiu seu tempo entre o trabalho como médico e as atividades artísticas. Em 1975, dirigiu o longa-metragem Lua Cambará, em parceria com Assis Lima, Horácio Carelli e Antonio Madureira. Com os mesmos parceiros, lançou a Trilogia das Festas Brasileiras - O Baile do Menino Deus, Bandeira de São João e Arlequim -, que reúne livros, discos e espetáculos teatrais. Três Histórias na Noite - contos, 1989. Arlequim – teatro – CEPE – 1990. As Noites e os Dias – contos – Editora Bagaço – 1997. Faca – contos – Editora Cosac Naify – 2003. O Reino Desejado – teatro – Revista de La Associación de Directores de Escena de España – Madri, 2003. Livro dos Homens – contos – Editora Cosac Naify – 2005. O Pavão Misterioso – prosa infantil – Editora Cosac&Naify – 2005. Bandeira de São João – teatro – Editora Objetiva – 2005. Arlequim – teatro – Editora Objetiva – 2005. Galileia – romance – Editora Alfaguara – 2008. Retratos Imorais – contos – Editora Alfaguara – 2010. Baile do Menino Deus – teatro – Editora Objetiva – 2011. Crônicas para Ler na Escola – crônicas – Editora Objetiva – 2011. Arlequim de Carnaval – teatro – Editora Alfaguara – 2011. Bandeira de São João – teatro – Editora Alfaguara – 2011. Estive lá Fora – romance – Editora Alfaguara – 2012. Le jour où Otacílio Mendes vit le soleil – Chandeigne – 2013 (em francês). Atlântico – novela – Mariposa Cartonera – 2015. O Amor das Sombras – contos – Editora Alfaguara – 2015. Teatro Baile do Menino Deus, 1983. Prêmio Zilka Salaberry, 2007. Bandeira de São João, 1987. Arlequim, 1989. O Reino Desejado, 1993. Retratos de Mãe, 1995. Malassombro, 1996. Prêmio Mercosul de Teatro, durante o Festival de São José do Rio Preto, São Paulo, em 1999. Os Desencantos do Diabo, 2001. Ópera do Fogo, 2003. Nascimento da Bandeira, 2007. Duas Mulheres em Preto e Branco, 2012.

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    Ceará, Brasil

    Ronaldo Correia de Brito