M.D. -

    Yann Andréa

    Marco Zero
    1987
    105 páginas
    3h 30m
    ISBN-10: 8527900432
    Português Brasileiro

    Yann Andréa Steiner e a paciente do quarto 2327[1] Para o Daniel Lins – que dissera escrever sobre o álcool. 05 de agosto de 1982 – Yann Andréa inicia as suas anotações. Seu livro começa ali – àquela data o inaugura. Ali as primeiras linhas. O fôlego curto. O susto, a imprecisão com relação a tudo. O medo de que seja tarde. O medo de que fosse a morte. De que os dias se contem nos dedos. De que se tenha ido além da conta. Que o possível não diga respeito aos arranjos do tempo. De que tão logo tudo esteja restrito ao agora. Contra isto, o registro. Contra isto, as notações. O depoimento. A memória. A palavra que quem sabe corta. E quem sabe sutura. E que talvez rejunte. A palavra que reordene. Que faça sugerir um sentido às coisas. Que se lhas deposite o sentido que não seria o das coisas - mas delas, o sentido que é desde as palavras, ele sabe isto que as palavras talvez nelas elas o tragam e então elas aí. Yann escreve. Contra isso é que se lhe faz a escrita. Um livro ali. Seu livro começa ali. Como numa justa o desafio. Arma-se o xadrez às horas. Dá-se a si os trabalhos do início... [http://www.andrequeiroz.com/index.php/escrita/117-yann-andrea-steiner-e-a-paciente-do-quarto-2327]

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    anja psi15/11/2015Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    http://www.andrequeiroz.com/index.php/escrita/117-yann-andrea-steiner-e-a-paciente-do-quarto-2327

    Yann Andréa Steiner e a paciente do quarto 2327[1] Para o Daniel Lins – que dissera escrever sobre o álcool. 05 de agosto de 1982 – Yann Andréa inicia as suas anotações. Seu livro começa ali – àquela data o inaugura. Ali as primeiras linhas. O fôlego curto. O susto, a imprecisão com relação a tudo. O medo de que seja tarde. O medo de que fosse a morte. De que os dias se contem nos dedos. De que se tenha ido além da conta. Que o possível não diga respeito aos arranjos do tempo. De que tão logo tudo esteja restrito ao agora. Contra isto, o registro. Contra isto, as notações. O depoimento. A memória. A palavra que quem sabe corta. E quem sabe sutura. E que talvez rejunte. A palavra que reordene. Que faça sugerir um sentido às coisas. Que se lhas deposite o sentido que não seria o das coisas - mas delas, o sentido que é desde as palavras, ele sabe isto que as palavras talvez nelas elas o tragam e então elas aí. Yann escreve. Contra isso é que se lhe faz a escrita. Um livro ali. Seu livro começa ali. Como numa justa o desafio. Arma-se o xadrez às horas. Dá-se a si os trabalhos do início. As peças brancas, o exército que se tem. O tabuleiro parece inclinado. Um penhasco o tabuleiro. Parece que pende para lá, para cá. Parece embriagado o tabuleiro. Indisposto ao jogo. Entregue aos atropelos. Tomado às trapaças do destino. Um risco, o corte – o tombadilho – e faz que cai o jogo ele se desmonta, ele se atropela. Yann Andréa Steiner enxerga náufragos ao seu redor. Ele mesmo um. Quanto será o tempo – uma sobrevida o bálsamo? E onde será se começa isto? A que modo ainda atende o organismo? Será que é de restos o de que se dispõe? Restos ao tanto de esbarrões – os órgãos revirados, lançados à própria sorte, eles como que deixados à deriva, enlameados talvez que das chuvas de um verão de há tanto a insensatez molhada em éter, a curva que onde ainda é a bebida, o copo a trazer no álcool um açude a interrupção do mundo. Quanto será que custa a espera – alguma equipe o salvamento uma terra à vista? Será se está à prova, o tempo ao tempo que se lhes será, e então o interregno? Será se está ao ‘ainda’ – o leme às mãos, o pulso que não quebra, o horizonte a um seu invento desde as hastes da vela a direção a seta, os passos sóbrios de umas peças ao ataque – a dama que é dada ao xeque-mate, os peões ao sacrifício da boa causa, tudo como que ao seu domínio, a extensão de seu território, a língua a assimilar os outros outrora uns bárbaros, o exército alheio em recuo, a retirada a rendição, lá o desmantelo? Ou será nada, nada que isto, ou será o que se têm são as marés inclinadas ao balouço, a nau em frangalhos, o tempo ele mesmo o desgovernado? Está-se refém – serão já as horas a isto? Yann Andréa Steiner talvez não traga consigo qualquer resposta fosse o caso uma resposta a aquietar os rumores. Yann Andréa não as têm. Seu livro começa aí. Como se ele fora um anteparo. Um contorno às urgências. Um desvio de rotas. Imensa a destreza do comandante – a máquina como que a parar as turbinas, os motores todos postos à avaria, e ele lá ao contorno das metas, as curvas ácidas na que se se dá ao desafio, às provações de quando um deus havia, ele lá a descrever os planos ao vôo uma aterrissagem em pista traçada de há pouco, uma língua na mata – um rasgo um clarão, sirenas improvisadas onde deveria haver os sinalizadores, a torre de comando, a liberação a que se faça o pouso e nada e nada! Yann Andréa escreve seu livro. Ali ele como que começa. 05 de agosto de 1982. Trouville – Yann Andréa está em Trouville. Ele ela. O apartamento à beira do mar. É nele que se bebe aos borbotões. Desde a manhã, os primeiros goles. E será isto até que se esteja à noite. Ontem, amanhã, dois anos assim. Ela talvez não agüente. Parece deve haver um limite. E talvez pareça que o limite é o aceno do corpo. As pernas não agüentam o peso do fígado gasto. Alguém que chega, o exame – um médico ali. Quando tempo isto? Ainda há o tempo a que as coisas persistam como estão? A fala do alguém. Ante-sala, uma contra-visita. Melhor que não se ouça a fala. Ela perfura carretéis aos que a escutam. Melhor que não se ouça. Outra garrafa. Parece faz esquecer – a fala, o alguém, o exame. As pernas, o fígado, o rosto torcido – porque é no rosto que a entorse desfigura de início. O inchaço, as maçãs sobressaltadas. A boca dada aos espasmos, uma golfada desde ali. Melhor que se pare. Melhor. Começar a escrever. Voltar a escrever. Ela diz achar-se em um buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total, e descobrir que só a escrita pode nos salvar [2]. Está-se de sob os testes. Faz-se que persiste o que esteve a passar. Faz-se que custa o que tão logo desaparece – as crianças à praia, os desacertos leves do estar-se criança e eis que tão logo não, ela dirá que elas as crianças eles vão crescer, isso vai desaparecer, seria bom guardar essa beleza [3]. Yann Andréa Steiner escreve como quem se arranja o espaço ao que há de se guardar. Escritor, escrivão – um invólucro. Arrendar ao instante o que já se lhe arrancava. Arranjar as gavetas, os escaninhos, os blocos à anotação. Trazer consigo um maço de papéis. Uma resma em reserva ao que será. Ao que se deu – e que não mais. Ao que se está a se dar e que não será ao tanto da desatenção este se dar. Como se tudo fosse de uma última vez. Como se tudo fosse de uma só vez. E então eis que os olhos à captura de tudo. Os olhos, nele o tudo, estes olhos não passariam ao buraco da agulha. Olhos pródigos a despeito disto. Uns olhos que como janelas à audição porosa do que for, do que estiver a ser. Yann Andréa escritor, escrivão, os papéis em estado de febre, a notação. Arma-se ali, ele arma o diagnóstico, os plantões, a escuta aos sintomas. O que será se está a operar? Será a paralisia que desde o cérebro é o embaralho de tudo? Será o coma de uns anos depois ele já agora a conjurar a seqüência dos dias, semanas, meses – ele o apagamento de tudo, e mesmo o apagamento do tudo até que ele fosse, até que ele se desse, e então os anos de depois um após o outro, os seis anos de depois arrancados à duração, eles à síntese do agora, os anos todos como que num pacote, o embrulho ao estômago, as visões celeradas, ela parada, sem olhar, refém da morte: no hospital Laënnec os médicos cogitam a eutanásia. Pedem a Yann uma sua autorização[4], mas quede que Yann? Quede que ele – será fugira para com as obrigações? Será se escondera ao peso do que lhe seria? Yann Andréa não está ali - a cena na que ele está é outra – cena que é de um tempo mais remoto, Yann Andréa ainda lá está, ele se demora por lá, Yann Andréa Steiner ele ainda não chegou até que seja a hora de decidir por um algo que até aqui não se lhe deu – algo que será ainda o tempo de 6 anos até que o algo se lhe acerte na forma da inquirição, uma eutanásia, fazer parar os aparelhos que a mantém – alguém a lhe perguntar, Yann onde que ele? Ele está ainda aqui atrás, uns anos antes,...

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